Spring love – o tempo da paisagem – Bruno Miguel – 2010

O Tempo da Paisagem

“Creio que o conteúdo formal de uma intervenção está em sua adequação, moderação e encanto.”

Brian O`Doherty

O questionamento a respeito de haver ou não espaço para a pintura de paisagens na arte contemporânea foi a origem desta pesquisa. Afirmando que sim, que há este espaço, escolhi as possíveis relações entre a paisagem natural e a paisagem construída (segundo Anne Cauquelin, toda paisagem é construída e a natureza é inacessível − só temos acesso à paisagem, que é uma desordem à qual nós damos sentido; ela também diz que toda tentativa de buscar a paisagem é uma tentativa de reconstruir um jardim da nossa infância) como o foco temático inicial, porém outras questões com tanta ou maior importância são desenvolvidas.

Pensando a construção e a representação, penso na minha paisagem. Sugiro relações entre a paisagem construída e a paisagem natural explorando o espaço, o suporte e o tempo. Penso a pintura para além do quadro.

Proponho a inserção de elementos naturais (porém construídos) em diálogo com paisagens construídas (arquitetura): pinturas, desenhos, objetos, árvores e plantações como elementos (ou recorte) de uma paisagem pensada para ocupar espaços construídos, a criação de um ambiente que instigue novos olhares para paisagens inusitadas.

A linguagem e a experimentação − novos suportes, como tecidos populares estampados industrialmente, banners de propaganda ou objetos retirados de sua função original, todos prontos para acomodar a pintura. A necessidade de não mais uma única técnica para desenvolver a pesquisa. Compreender a multiplicidade de possibilidades ao se abordar o tema sem preconceitos acerca da técnica escolhida. Experimentar novas possibilidades técnicas e materiais na pintura, o desenho levado ao campo do espaço real e virtual, porém sem perder a possibilidade de ser traçado com um descompromisso quase juvenil. Em vez do início no branco infinito, a partida de um suporte que já traz uma história em sua carga intrínseca permite a extensão do tempo da obra para antes do início da minha pintura, problematizando questões que vão além do tempo e agregando discussões a respeito da apropriação e do papel do pintor além da parte técnica. A inserção do “outro” como coartista, a fundamentação através da pesquisa do pensamento junto a novas linguagens, como a plantação de grãos e mecanismos de inserção e difusão, como a internet ou a formação de grandes redes.

Através da troca de sementes e grãos e da sugestão em algumas obras, o espectador se torna coartista, levando para sua casa sementes ou as trazendo para semear nas plantações coletivas montadas nas exposições. O artista como sugestionador e incentivador de situações inclusivas para o espectador. As plantações são desenhos, intervenções, tempo e transformação. Plantações com algodão ou terra, desenhadas no espaço, transformam-se a cada dia. Grãos variados permitem que a obra esteja em permanente transformação − enquanto algumas sementes germinam, outras já estão morrendo. A obra em sua total temporalidade, plantação, germinação, crescimento e morte.

O tempo na paisagem − a possibilidade de ter o tempo como protagonista da obra. Na pintura, isso é possível através da representação dos tempos distintos do processo na composição final. Como se a apresentação final fosse um somatório de frames capturados em momentos diferentes da execução da obra, o tempo total se apresenta com a sobreposição das etapas do processo sem que nenhuma anule outra (diferente do atemporal). Apresenta-se a rede de influências / referências cotidianas do artista como base para a construção, e não a paisagem real. E, nas plantações, existe a expectativa de uma paisagem que se transforma a cada dia, pela germinação, o crescimento e a morte dos grãos semeados. Explorar o limite entre o natural e o artificial, destacando o hibridismo como possibilidade. As questões em torno do tempo da representação são levadas para fora da tela, o tempo em que vivemos, documentado através dos fluxos e refluxos próprios da nossa época, instantâneos e sem limites de fronteiras devido à internet e à velocidade de informação do nosso mundo globalizado.

A construção de paisagens híbridas e coletivas − enquanto gerações passadas tinham que esperar a publicação de livros para ter acesso a grandes obras, muitas vezes impressas em preto e branco, ou ter a sorte de alguma exposição com importantes artistas do seu tempo passar pelo país (situação comum a países de terceiro mundo e periféricos ao grande circuito), os artistas da minha geração têm acesso a tudo que lhes interessa por uma infinidade de mídias, a principal delas sendo, obviamente, a internet. A rede propicia uma troca contínua entre pessoas e realidades. Uma convivência a distância. Além disso, atualmente, o número de residências artísticas internacionais não tem precedentes. Essa vivência em outros países permite que se mesclem o cotidiano e o novo, que se notem semelhanças ou contrastes de pensamento e produção, proporcionando situações em que o artista vê com o olhar de fora imagens nem sempre percebidas pelo morador local. A facilidade de acesso faz com que artistas em continentes diferentes realizem paisagens similares sem que nenhum deles tenha realmente estado nelas. Em um tempo em que mundos como o do Second life, do Facebook ou do Orkut se tornam uma sensação avassaladora, é impossível se abster das trocas interculturais e dos fluxos e refluxos.

O desbloqueio do olhar para paisagens cotidianas – propor, através de alguns trabalhos, que se enxergue o cotidiano com outros olhos, que os espectadores sejam capazes de se encantar com uma construção por onde passem todos os dias e cujos detalhes nunca tenham percebido antes. Possibilitar que eles enxerguem a beleza do volume de uma construção, as cores do tempo sobre a superfície, a relação estabelecida pelo homem entre o construído e o natural, e a resposta da natureza a esta imposição. Fazer com que o coartista, a partir do desbloqueio de seu olhar, seja capaz de interceder com suas ações.

A paisagem na história da arte − como pensar novas questões a respeito de um tema tão trabalhado ao longo da história e que continua atual. Possibilitar o entendimento de novas influências como tecnologia, acesso à informação e mundo globalizado como elementos na construção da paisagem contemporânea, bem como política, sociedade, circuito e mercado. Enxergar uma paisagem que não se restrinja somente à representação. A paisagem traz consigo toda a potencialidade de nossa contemporaneidade.

Nossa geração, diferentemente das anteriores, não teve que transgredir tanto, já que tudo já havia sido realizado. Atualmente tudo é permitido − somos filhos de uma geração que lutou pelas transformações, e creio que a arte nos foi dada já desmistificada, próxima à nossa vida, mesmo que incompreensível para a absoluta maioria. A internet, a MTV, a propaganda e a globalização mudaram o tempo em nossas vidas e com isso alteraram o tempo da história. Hoje em dia não há desculpa para a falta de informação: tudo é acessível, recortado e colado, não é mais possível fazer um trabalho sem contextualizá-lo, sem ter consciência de toda a história da arte, inclusive a contemporânea. Tudo é instantâneo, acelerado, relacionado à moda, e se torna obsoleto em pouco tempo. Aprendemos a viver em um mundo de descartabilidade, e com isso criamos nossas defesas e nossos ataques. Tornamo-nos uma geração essencialmente irônica com a história.

Bruno Miguel