Naquela tarde mais um capítulo – Bruno Miguel – 2010

Naquela tarde, mais um capítulo (Remix).

Era uma sexta agradável no finzinho da primavera. Marcamos a conversa para as 16:00 horas, no café do Parque. Todos já estavam lá, Oiticica, David e Gloria Ferreira. Peço desculpas pelo atraso, Helio diz que também acabou de chegar, acho que pegamos o mesmo engarrafamento no túnel. Com certeza a praia estava lotada. Usar bermuda em um dia como esses é obrigação. Glorinha chama o garçom para pedir um cinzeiro e David aproveita para pedir uma sopa de tomate.

David presenteia a todos com o livro de Edward Ruscha, Nove piscinas e copo partido. Ele é sempre muito gentil. Elogio sua ultima série de pinturas. Especialmente “a bigger splash”, ele agradece em um português carregado de sotaque de gringo – Muita obrigado, deu muito trabalho. Todos riem, e nesse clima de amenidades vemos o tempo passar. Vejo João Magalhães entrando com um grupo de alunos em sua sala, aceno e ele vem me dar um abraço. Comento com David que aquele senhor é o responsável por eu ter escolhido pesquisar a paisagem como foco do meu trabalho. Tudo fruto de uma provocação em uma aula na universidade. Haveria espaço para a pintura de paisagem na contemporaneidade? Glorinha sorri e Hélio de imediato afirma: temos que pensar a pintura depois do quadro. Expandir o campo pictórico para o espaço é inevitável.

Aproveito o gancho para pedir a opinião deles sobre o trabalho que pretendo realizar. Colocar umas telas boiando na piscina e deixa-las à mercê do tempo. Gloria diz que acha pouco, que seria mais interessante se eu relacionasse a pintura com as plantas, como tinha acabado de fazer em minha exposição Spring Love. Concordo. Hélio pede que eu não deixe de usar os tecidos estampados, ele acha que posso explorar o movimento do pano na água. Pinturas e plantas, telas e vasos coreografados sempre no improviso pelo vento e pela chuva dentro da ilustre piscina do Parque Lage. Gostei.

Mas o que pintar nessas telas? Não faria sentido pintar casas ou árvores já que o trabalho seria observado na horizontal e eu não poderia definir qual seria a parte de cima ou de baixo do trabalho, já que o espectador poderia ver o trabalho a partir de qualquer uma das laterais da piscina. David com toda sua sagacidade, mandou na lata: Clouds, man! Tava na cara, a dinâmica das obras na piscina seria quase um reflexo das nuvens no céu. Não como imagem, mas como movimento.

Eu, que na verdade já tinha decidido nessa série de pinturas, citar a moda dos anos 80 e a pintura daquela geração através da paleta de cores e do gesto na construção da imagem, depois dessa conversa toda, acabei batizando a obra como “Homenagem a David Hockney”. Honraria justíssima na opinião de todos. O garçom volta para nos informar, já sem uniforme e agora vestindo uma camisa do Snoop Dog, que a escola vai fechar mais cedo. Parece que vão filmar algo na piscina no dia seguinte e a produção começaria naquela noite. Glorinha pergunta qual é o filme. Ele diz – acho que é outro do Glauber.

Bruno Miguel