Have a nice day! – O Turista – Marcelo Campos – 2011

O Turista

O excesso, a ansiedade, a vontade de experimentar o paraíso por instantes, buscas erráticas por imagens entrevistas pelos vidros dos veículos de locomoção, fotografias mal enquadradas, várias são as condições do turista. Os prazeres populares, a citação, a ironia, formas fugidias, imprecisões, a vontade de pertencer, estas são algumas das condições da pintura de Bruno Miguel. Seriam posturas complementares?

Bruno Miguel elabora a exposição Have a Nice Day, cumprimento recorrente que guarda uma utopia existencialista. Na exposição, o artista apresenta o resultado compulsivo de duas vertentes de trabalho, a pintura sobre objetos apropriados e a escultura. Sobre molduras usadas, pertencentes a outro artista, Bruno Miguel pensa imagens on the road, vistas do interior de carros de passeio, mas, francamente relacionadas a clássicos da história da arte. Nas molduras, criam-se efeitos, pois a superposição de planaridades (chassi, moldura e vidro), aproxima-se aos resultados em 3D e à holografia. Aproveitando o que seria descarte, resto, Bruno pinta por toda a extensão do objeto. O lixo é encarado como herança. Pintar sobre o objeto lança-o em uma tarefa de um quase-escultor, não daqueles que queriam revelar figuras magicamente existentes em blocos de mármore, mas dos que aceitam a alegoria da cultura popular, os reclames de beira de estrada, as soluções carnavalizadas, os materiais vulgares. No resultado, a matéria ganha o volume inflado e escorrido com espumas, resinas e tintas. Ainda continuamos tratando de pintura?

A escolha de imagens evidencia o turista, em todos os sentidos do termo. Ressaltam-se ambientes culturalmente exóticos, casas de lanches rápidos feitas em forma de ocas de índios apache, motéis, peixarias, abatedouros. Impressionamo-nos com a criatividade autóctone das arquiteturas publicitárias: marquises, flâmulas, testadas de prédios e casas. Tudo um pouco avançando sobre a estrada E a pintura de Bruno Miguel caminha com os mesmos procedimentos, avança sobre os vidros, repete listrados, combina-se em sinalizações, ressalta os embossados efeitos das letras, as sombras. Para maior estranhamento, mantém-se a língua estrangeira. Neste sentido, vemos formas e desenhos ainda quando as palavras parecem nos dizer algo. Bruno Miguel usa a palavra como mais um elemento pictórico e arquitetônico. Tudo concomitantemente: El Rancho Motel, Pan Cake Palace, Niblock’s Pork Store. Assim, descortinam-se usos da cultura americana expondo ancestralidades étnicas e estéticas, ruralismos, imigrações, fronteiras e conquistas coloniais.

Do interesse escultórico, espacial, mas mantendo a pintura como meta, uma série de objetos com grande força mimetiza montanhas, vegetações, pedras em escala de brinquedo e cenário. Como ambientes de filmes de ficção científica, revelando uma estética geracional, as peças são apoiadas por pés de mesas e cadeiras, lisos ou torneados, às vezes em madeira, outras em resina. Aqui, o artista corajosamente assume um lugar de franca proximidade com as esculturas de carnaval e de casas de festa infantil: edens suburbanos. Um lugar pouco explorado. Em vez de primar pelo alisado laqueado da escultura orientalizada, presente em muitos artistas atuais, Bruno aceita soluções onde os amassados, a manufatura, a moldagem se dão quase como uma action painting, “zoation sculpture”, para agradar à turma que se autodefinia em seu tempo de Escola.

Exceder, recusar os cacoetes do cubo branco, a limpeza bem comportada.

Conviver com os trabalhos de Bruno Miguel nos situa em um aprendizado sobre possibilidades dos efeitos de superfície, pleonásticas, reafirmativas de vertentes às vezes contraditórias, crenças que se apresentam diante de nossos olhos em evidente combate: geometria e pinceladas expressivas, monocromos e colorjet, arquiteturas modernistas e ecléticas, tinta óleo sobre vidro. Estas são as condições erráticas de um “turista aprendiz”, condições de todos nós.

Marcelo Campos