Have a nice day! – entrevista com Daniela Name – 2011

1- Nesta série de pinturas feitas para “Have a nice day!” você cria uma relação direta com uma paisagem fugidia, muito ligada aos estabelecimentos comerciais à margem de vias expressas dos EUA. Estes prédios são geralmente vistos por quem do carro, por quem está passando rapidamente em frente a eles. O vidro na frente da pintura tem uma relação com isso?

Sim, mas eu não considero que o vidro esteja na frente da pintura. A janela / vidro é o suporte. Ele abriga a pintura, acaba sendo o momento da impressão do olhar. É outra forma de pensar o conceito de janela.

 

2- Falando ainda sobre o vidro, ele assinala de forma bastante visível uma situação que sempre se insinuou em seu trabalho. Sua pintura é construída por planos (tecidos com estampados, colagens, pinturas com tintas diversas) que vão se unindo, se amalgamando, trepando uns sobre os outros. Esta sobreposição de materiais, concreta, acaba servindo de espelho para as inúmeras camadas de sentidos e de referências que você leva para o seu trabalho. Poderia falar sobre isso?

Acho que sua pergunta já meio que trás a minha resposta. É isso mesmo. Sempre construí minha pintura em camadas, penso a composição assim, sobrepondo e retirando, pintando e raspando, sempre achei que deixar o processo aparente, a experimentação de materiais enriquece a obra, agrega. Curto usar suportes que já tem uma história porque isso soma, é sempre mais legal do que começar do zero. Gosto de começar do menos, anterior ao zero!

 

3- Que novos desafios foram impostos estes trabalhos que têm uma área menor de pintura, mas uma complexidade enorme na execução?

A redução da escala não foi um grande desafio, até acho mais fácil pintar nesse tamanho, e pra um começo de nova pesquisa era o ideal. O principal desafio era resolver tecnicamente esse conceito de tridimensionalidade que eu queria discutir. Pintar em três planos para construir um. A pintura tinha que ser de um jeito na madeira da base e de outra maneira no vidro. Pintar no vidro por dentro da moldura era outro desafio, porque eu acabava não vendo exatamente o que aparecia na frente da pintura, eu só via as costas da imagem. Foram dois meses e meio pesquisando materiais e soluções técnicas. Mas acho que valeu a pena, ficou como eu queria.

 

4- Toda paisagem é construída, já nos ensinou a querida Anne Couquelin. Em que medida “Have a nice day!” reafirma isso?

Acho que toda a exposição reafirma isso. Não saberia explicar a medida. Aquelas são as interpretações e reconstruções dos meus olhares e minhas memórias de paisagens, vividas ou não. A presença do homem na paisagem sempre macula o natural com algo de racional. Toda representação é construída.

5- O suporte destas pinturas são molduras antigas de uma exposição de Carlos Zílio, para quem você já trabalhou (ainda trabalha?) como assistente. Como a memória deste outro uso interfere e enriquece cada trabalho seu?

Ainda trabalho com o Zilio até hoje. Adoro passar as tardes de quinta no atelier dele. Ele é um exemplo pra mim. A utilização de suportes que já tem uma história, não só agrega conceitualmente, como faz com que o suporte muitas vezes traga marcas físicas deixadas pelo tempo e pelo uso. Ao começar um trabalho preciso problematizar a história passada com a história que virei a construir. É aquilo de não começar do zero.

6- A exposição também tem um segmento dedicado a esculturas de massa fria. Você já tinha trabalhado com este tipo de material, mas em dimensões muito menores. Como foi a gênese desta expansão, deste crescimento dos trabalhos? Estas peças repetem, de certa maneira, uma operação da pintura, já que também expatriam objetos – móveis, uma prancha de surfe – de seu uso e seu território originais, não é verdade?

Na verdade só as árvores nas esculturas são de porcelana fria. A série se chama móveis paisagens, quis fazer algo que relacionasse arte contemporânea e a estética da zona norte carioca. Então contratei um escultor de barracão de escola de samba e utilizei todo esse universo técnico e alegórico pra fazer as minhas peças. Elas são feitas de isopor, espuma de poliuretano, empasteladas com papel maché, depois pintadas e por último levam um banho de resina acrílica. O processo é bem longo e quimicamente violento, cheguei a ir pro hospital com uma intoxicação devido às resinas e tintas em spray. Comprei e ganhei móveis antigos, os quais eu desconstruí e utilizei como parte das obras, principalmente como base. E isso traz toda aquela história agregada que citei anteriormente.

7- No primeiro andar da galeria Luciana Caravello, as pinturas são margeada por uma instalação, que usa uma antiga placa de açougue como âncora da composição. Como este trabalho vou se impondo nesta montagem?

Eu busquei nas pinturas, uma paisagem global, cheia de clichês, que qualquer um em qualquer lugar pudesse reconhecer, por isso escolhi paisagens em inglês, apesar de nem todas serem americanas, o inglês dos letreiros meio que universaliza a imagem. Na instalação de parede, logo na entrada da exposição, eu cito os clichês cariocas, é o momento de opor para mostrar a intenção e o controle sobre o que se passa lá dentro da sala com as pinturas. É uma placa de açougue repintada, um quadro de letrinhas de plástico de botequim, uma pintura sobre um espelho convexo típico de lojas pequenas com grandes corredores além de uma pintura sobre pôster de propaganda e dois latões, um de óleo vegetal e outro de tinta com espadas de São Jorge e lanças de Santa Barbara, elementos comuns às calçadas cariocas.

8- Uma discussão antiga entre mim e você gira em torno de acúmulo. Divergimos amistosamente a respeito da exposição de vários aspectos de sua criação simultaneamente. Eu acredito que você pode e deve criar no ritmo e com a variedade que bem entender, mas poderia expor isso de maneira mais encadeada, alternada. Você, que domina sua obra melhor do que outra pessoa, defende um processo diferente: acha que o acúmulo faz parte de seu pensamento estético. Adoraria ler novamente os seus argumentos.

Rs, eu vim do Pamplonão, atelier de pintura da Escola de Belas Artes, um mundo de excessos e precariedades, acabei tendo a sorte de conviver com outros artistas da minha geração, os quais admiro e que acabaram influenciando minha formação. Essa estética de excessos sempre me agradou, é uma opção, algo que acredito fazer parte da minha poética. Eu sempre produzo séries, gosto de ir abrindo o trabalho, nunca considero minhas séries fechadas, elas ficam em estado de espera, e eu trabalho em várias simultaneamente, quando acontece de elas já terem força pra ser apresentadas eu as jogo no mundo. Acho que as coisas se complementam, vão dando força e criando sentido. Eu tenho trabalhos muito diferentes uns dos outros, mas que no fundo eu acredito serem respostas complementares pras mesmas perguntas que regem minha pesquisa. Mas talvez, um dia, eu me torne um cara clean, nunca se sabe!

9- Tentando me colocar no lugar do outro – isto é, no seu lugar – fiquei me perguntando se a exposição simultânea de vários aspectos do seu trabalho não reproduziria, no espaço expositivo, o processo que você empreende em cada obra. Quem entra na galeria ou sala de museu percebe na sala a mesma sobreposição de camadas e de discurso distintos, a mesma encruzilhada de informações que é vista em uma tela sua ou em uma escultura que reveste de massa colorida um outro corpo, um outra história. É por aí?

Exatamente! É o que eu acabei de citar na outra resposta, a senhorita está realmente entendendo minhas paradas! Rs…

10- Na visita ao seu ateliê na Ilha do Governador, falamos como estas esculturas maiores ganharam uma estrutura semelhante a de um carro alegórico de carnaval. A referência do fazer manual, do labor e do suor, é muito forte para você. Poderia falar sobre isso?

O processo ensina! O tempo que se está no atelier, pensando, trabalhando, errando é fundamental pro desenvolvimento. Eu sempre, desde muito jovem, tive vários empregos, das mais diversas ordens, já fui recreador infantil, já fui malabarista de boite, já fui camelô com meu irmão, já vendi cachorro quente com minha mãe, dei aula por 10 anos em escolas, além de várias outras coisas e vários desses empregos foram simultâneos. Sempre trabalhei, agora como artista, no meu atelier, não poderia ser diferente, né? Acho que isso tem a ver também com esse aspecto das séries e de apresentar coisas diferentes simultaneamente. Sou meio compulsivo com isso de trabalhar!

11- O carnaval se cruza com ícones da cultura de massa, pop, e com a história da arte em toda a sua trajetória. A sopa de referências é uma característica pós-moderna, mas como você tempera e equilibra este caldo para que ele se torne de fato seu?

Deixando claros os meus interesses, tanto quanto os do meu trabalho. São aspectos diferentes, mas que com o jeitinho certo se misturam e dão um sabor especial à obra. O carnaval é algo novo nessa sopa, eu temperava muito esse universo da história da arte e da cultura popular com o funk, a televisão e os quadrinhos, além é claro das minhas referências pessoais como artista. Acho que os títulos acabam tendo uma importância grande nos meus trabalhos, por ser um momento em que consigo sugestionar esses aspectos com maior clareza.

12- Por fim, você costuma escrever sobre seu trabalho e não foi diferente nesta nova exposição, para a qual produziu um texto que vai ser publicado junto com o da curadoria. A escrita é uma forma de elaborar o discurso, mas como esta elaboração contribui para a que acontece no plano visual e prático, no seu ateliê?

Eu normalmente só escrevo no final do processo. Acho que acaba sendo um registro organizado de tudo que povoou minha cabeça durante o desenvolvimento da exposição. O texto acaba influenciando mais as séries seguintes, do que a da qual ele realmente fala. Porque me obriga a me reposicionar e reinventar o trabalho para uma nova jornada, ou então aprofundar o que foi discutido inicialmente. Mas acho também, que é legal o artista ter voz ativa no registro que fica de uma exposição. Os trabalhos obviamente ficam e são parte desse “legado”, mas não entendo porque me abster de uma troca entre eu e a curadoria e a crítica. Escrever é o momento de arrumar a casa pras visitas que virão jantar, a comida tem que estar saborosa, mas não quero ser lembrado só como um bom cozinheiro, quero ser um bom anfitrião.