Entrevista para abre alas – Ramiro Garavito – 2008

Entrevista para “Abre Alas”

Ramiro Garavito = Artista plástico boliviano e curador da Bienal de La Paz – Bolívia 2007 + Bruno Miguel

RG -> A evidente contextualização física de suas paisagens construídas não conduzem à perda da capacidade das mesmas intervirem no espaço construído?

BM -> Não. O lado “físico” da obra apesar da suposta ingenuidade de sua apresentação carrega por detrás uma bagagem “racional” que não tem a intenção de ser mais importante do que o objeto final. Não acredito na necessidade de uma auto-afirmação intelectual como pré-requisito para o desenvolvimento de um bom trabalho contemporâneo. As possibilidades de diálogo entre a paisagem “construída” e “natural” são infinitas e mostrá-las depende mais de adaptar o olho de quem vê, do que propriamente da capacidade do artista criar o discurso que “sustenta” o trabalho. Acho que essa apresentação direta de algo comum à realidade do expectador não especialista em arte contemporânea agrega mais do que explicitar um conhecimento específico que meia dúzia de expectadores “do meio” perceberá plenamente. Prefiro ter como foco o resultado a explicitar o processo. Mostro um algo comum, contextualizado em um ambiente inesperado, relacionando-o à arquitetura do local e buscando um encantamento do expectador. Essa intervenção no espaço construído não está baseada unicamente em aspectos teóricos e na demonstração dos mesmos. Minha preocupação no fazer desse trabalho vai da história da arte à lembrança da infância do expectador.

RG -> Dentro do seu trabalho existem vários conceitos importantes, os quais você mesmo assinala. Qual é o mais importante para definir seu trabalho?

BM -> Especificamente, nestes trabalhos de plantações, a mudança do olhar do expectador. Busco de maneira delicada e sutil uma interação com o visitante da exposição. Meu trabalho fala da paisagem, da construção de novas paisagens, da contextualização da mesma e da possibilidade do visitante participar do processo ativamente fazendo suas plantações híbridas e as construindo dentro desse diálogo natural/construído a partir de trocas e experimentações. Ou passivamente, através da mudança do olhar no seu cotidiano, quando essas paisagens se apresentam diante dele como algo sem valor, como uma vegetação que insiste em nascer no concreto rachado de um viaduto ou pequenas árvores que despontam em calhas de telhados, essas coisas que normalmente passam despercebidas diante de nossos olhares bloqueados. Tenho como passatempo em minhas viagens de ônibus pelo Rio de Janeiro esse exercício de encontrar “Oásis Urbanos”. Gostaria de desbloquear mais olhares.

RG -> A partir do conceito de “espaço construído”, que sentido tem sua proposta de “construir paisagens”?

BM -> Tudo partiu de uma discussão sobre haver espaço para a pintura de paisagem na arte contemporânea e havendo esse espaço como essa representação deve ser feita. A partir desse mote desenvolvi uma pesquisa sobre a representação da paisagem e os diálogos entre a paisagem construída e a natural, o formal e o orgânico, o espaço e o tempo. Como desdobramento dessa representação, cheguei à construção real da paisagem, viva, natural, porém construída, o homem racionalmente sugerindo uma retomada do espaço construído, trazendo de volta um híbrido, não afirmando uma maior importância para um ou para outro, propondo uma relação harmoniosa. Pensada, porém à mercê de todas as possibilidades ocasionais de um trabalho que não depende só do artista. O natural e o racional como cúmplices para a execução do resultado final. E percebendo nesse aspecto acima dos outros, o diálogo.

RG -> Você acredita existir uma relação artística necessária entre a capacidade de interatividade do seu projeto e seu prolongamento na construção de novas paisagens por parte do expectador? (a pergunta se baseia na experiência do trabalho em La Paz quando o artista junto às suas plantações, distribuía envelopes com sementes brasileiras aos expectadores, convidando-os a serem “co-artistas” e propondo que eles construíssem suas paisagens misturando os grãos com outros que escolhessem)

BM -> Não necessária. Mas possível. E isso seria pessoal, relacionado mais a uma questão de auto-estima do “co-artista” do que a um selo de “ISSO É ARTE”. Proponho uma experiência. Fazer parte de um movimento que não sabe aonde vai chegar, mas que é ambicioso e agregador. Mais do que criar jardins em meio ao concreto, tento fomentar pensamentos, chamar atenção para aspectos comuns do cotidiano e estabelecer relações que fujam ao meu controle. Em breve o site www.construindopaisagens.com estará no ar e servirá melhor para ampliar o movimento, mapear tendências e trazer novas discussões.

RG -> Quando conversamos você comentou que pensava em desenvolver seu trabalho em outros âmbitos. Que conceito em seu trabalho te permitiria esse desenvolvimento?

BM -> A polivalência do termo paisagem. Acho que qualquer linguagem é trabalhável dentro desse tema. Sei que meu trabalho está engatinhando quando se trata de possibilidades. Fugindo de atalhos ou macetes da arte contemporânea, qualquer opção que seja feita com verdade, é válida. Pintura, intervenção, plantação, instalação, maquete, desenho, foto, vídeo, site e por aí vai. E entendendo também que com essa proposta de interação com “co-artistas” o trabalho fica sem um fechamento específico, abre-se um leque de desdobramentos contínuos. Minha intenção é plantar a semente.