Entrevista com Marcio Fonseca – 2011

Bruno: A intenção é conhecer um pouco mais você, algo além do artista e professor. Você pode descartar aquilo considerado irrelevante e acrescentar algo importante. Qualquer coisa é só falar. Abraço

 

Bruno fale algo sobre sua vida pessoal 

Nasci em 1981, no Rio de Janeiro, mais precisamente no Leblon, cito isso porque me considero um carioca completo, tipo cara e coroa, até meus pais, que eram comerciantes, se separarem eu morei por vários bairros da zona sul, Humaitá, Gávea, Leblon e alto Leblon. Passei quase a primeira metade da minha vida (até agora), desfrutando da paisagem e dos costumes dos cartões postais cariocas. Quando eu tinha uns 13 pra 14 anos, mais ou menos, minha mãe, se divorciando do meu pai, decidiu sair do aluguel. A grana que ela tinha não dava pra manter nosso padrão de vida na zona sul então ela procurou algo para comprar na Ilha do Governador, bairro que apesar de distante, era simpático, calmo e com valores de imóveis dentro das possibilidades. Mudamos minha mãe, meu irmão mais novo e eu. Desde então passei a conhecer melhor a paisagem e os hábitos da zona norte carioca. Esses dados são importantes para o entendimento da “aura” do meu trabalho. Tanto conceitualmente quanto esteticamente.

 

Como a Arte entrou em sua vida?

Quando vim morar na ilha, me inscrevi no curso de teatro da minha nova escola, Colégio Óperon, fiz teatro durante uns 5 anos, levando a coisa bem a sério, mas com o tempo fui precisando de desafios maiores, aí comecei a escrever, dirigir, fazer a cenografia, pensar os figurinos. Nisso percebi que minha onda não era representar, era criar.
Caí de pára-quedas nas artes visuais, nem desenhar direito eu sabia, arrisquei e deu certo.

 

Qual foi sua formação artística?

Passei no vestibular pra Lic em ed. Artística na EBA – UFRJ e de lá não saí mais. Me formei em ed.artistica, depois em pintura. Comecei a dar aula quando estava no quinto período da faculdade, minha primeira escola foi exatamente o colégio Óperon, aqui na Ilha. Dei aula em um monte de escolas aqui do bairro, dei aula no Grajaú, em Macaé (trabalhei por 3 anos em um projeto de extensão da UFRJ que se chamava UFRJMAR, que levava projetos de educação inovadores para as cidades do litoral carioca). No começo de 2010, passei como professor substituto na EBA, no departamento de pintura e no de desenho. Minha história com o Parque Lage é mais recente, deve ter uns cinco anos. Fiz cursos livres com João Magalhães, Marcio Botner, Bob N e Franz Manata. Em 2010 passei pro curso de aprofundamento do Parque, e tive aulas com Glória Ferreira, Lívia Flores e Luiz Ernesto. Em 2011 me tornei professor da escola. Darei dois cursos, um de férias com o Pedro Varela (que é meu amigo desde a Faculdade) chamado Agora! Desenho e pintura como pensamento contemporâneo e outro com o Luiz Ernesto (meu professor no aprofundamento) que será um curso pra quem quiser se aprofundar em questões da pintura e já tenha alguma experiência, esse se chama Questões pratico teóricas da pintura na contemporaneidade. Além disso, sou assistente do Carlos Zilio desde 2006.

Que artistas influenciaram seu pensamento?

Nelson Rodrigues, Chaves, Martin Kippenberger, MC`s Claudinho e Buchecha, Bill Watterson, Mc Magalhães, Van Gogh, Quentin Tarantino, Goscinny e Uderzo, O Rappa, Pablo Picasso, Hélio Oiticica, Takashi Murakami, M. Night Shyamalan, Los Hermanos, Carlos Contente, João Magalhães, Marcelo D2, Ferris Bueller, Basquiat, Mc Marcinho, Sigmar Polke, Carlos Zilio, MTV, Lazaro Ramos, Guel Arraes, Eduardo Coimbra, Ariano Suassuna, Black eyed Peas, Machado de Assis, Stanley Kubrik, Stan Lee, Gehard Richter, Ives Klein, o cara que inventou a televisão, Amedeo Modigliani, Pedro Varela, Lady Gaga, David Sale, Marcel Breuer, Bispo do Rosário, Terry Richardson, Oscar Niemeyer, Robert Rodriguez, profeta Gentileza, Christo, Cy Twombly, Mister Catra e mais um monte que agora não to lembrando.

Como você descreveria seu trabalho?

Como pintura de paisagem ou… Como uma pesquisa sobre o tempo da e na paisagem pensado a partir de possíveis construções e representações da mesma. Utilizando para isso um “pensamento pictórico” como ponto de partida e agregando a ele minhas referências, a história da arte, mídias e cultura popular. Ah, e também é algo com doses de prazer, diversão e beleza com “leves” camadas de ironia e humor.

 

Você é professor da EBA e da EAV, que diferença você entre as duas instituições?

Então… Eu comecei a dar aula no Parque semana passada, na EBA no começo de 2010. Acho que ainda não posso expressar uma opinião de como é ser professor na EAV, na EBA, fui aluno por mais de 10 anos e acho que conheço bem os prós e os contras de lá. Eu acho que, de verdade, as duas instituições se completam. Falo muito isso pros meus alunos da EBA. Na universidade além da possibilidade de uma formação ampla, tem a questão do tempo do curso, que obriga o aluno a viver a coisa em um outro ritmo, tem que estudar o que gosta e o que não gosta (acho isso importante), tem que ficar 3 anos tendo aula no atelier, mas a EBA tem o problema geográfico, é fora do mundo real, os alunos ficam literalmente ilhados e tem pouco contato com arte contemporânea, essa é grande lacuna a ser preenchida, criar a ponte de uma educação para artes com vocação acadêmica, com o circuito e o mercado. Na EBA ainda tem alguns professores que declaram opiniões do tipo: arte contemporânea é uma grande palhaçada. Ou então, na arte, nada produzido depois de 1950 tem valor, e aí fala isso pra um cara de 18, 20 anos que muitas vezes chega na faculdade de artes achando que o modernismo está aí até hoje como a última moda, pronto. Está selado mais um caixão! A grande lição da EBA é que se você entender como ela funciona, se entender o que falta em cada um dos cursos existentes na escola e for atrás de complementar as carências, você pode se dar bem. Mas acaba dependendo muito mais do aluno do que do professor. Agora no Parque a coisa é muito mais dinâmica, cada um escolhe que aula quer fazer, os professores são mais inseridos, o que facilita a inserção dos próprios alunos. Acho que o Parque está passando por um momento super importante, que é dessa democratização dos cursos através das bolsas da fundamentação e do aprofundamento, além dos cursos de produção que a escola está oferecendo. Talvez essa fosse a iniciativa necessária para ligar as duas escolas, porque com a fundamentação, por exemplo, muitos alunos da EBA estão cursando a EAV desde o começo dos seus cursos e isso meio que dá uma vacinada na galera contra vírus reacionários que ainda habitam algumas salas da EBA. No meu mundo ideal, o aluno faz a EBA e complementa com o Parque Lage.

 

Como você compatibiliza as duas funções de artista e professor?

Dormindo menos do que gostaria rs… É difícil, principalmente porque eu trabalho muito, tanto como professor, quanto como artista. Além disso sou assistente do Carlos Zilio faz uns 4 anos, é o melhor emprego do mundo, ganho pra aprender, é uma tarde na semana fundamental pra mim. Eu sempre fui muito pé no chão. Quero viver do meu trabalho de artista, mas sei o quanto isso é difícil e demora pra acontecer. Por isso fiz licenciatura primeiro, é a minha âncora, que paga as minhas contas no dia a dia e me permite continuar produzindo meu trabalho com independência. Eu acredito que seja a melhor co-profissão para um artista, porque me permite continuar estudando e me reciclando permanentemente. Dei aula uma década pra crianças e adolescentes, confesso que já estava de saco cheio. Dar aula pra adultos ta sendo muito mais recompensador intelectualmente. Mas hoje em dia começo a poder ter como planos a médio prazo, ficar um pouco mais de tempo no atelier e menos em sala de aula.

 

Qual sua opinião sobre o ensino de arte no Brasil?

O erro tá na base. A maior parte das escolas não dá muita importância ao ensino de artes. Vira meio tarefa de lazer, quem quer, beleza, quem não tá afim faz qualquer coisa e passa no final. Eu acho que a principal mudança a ser implantada é fazer com que os professores de ed.artística se atualizem e mudem sua postura frente as ementas. Acho que uma aula de artes tem que ser muito menos ensino de como se faz trabalhos artísticos e muito mais de como se pensa em um. Tem que entender que os exercícios tem que ser pra cabeça e não pra mão. Eu quando lecionava em escola sempre tinha como foco fazer a molecada ter um pensamento criativo, iniciativa, segurança e senso crítico. Mostrar a interdisciplinaridade das artes visuais com a sociedade através desses aspectos. Relacionar com outras profissões que lidam com a criação. E dentro dessa abordagem ir pincelando história da arte. Tem que ir desenvolvendo uma disciplina do hábito da criação e do senso critico. Do refletir. Disciplina é bom nesse sentido, tipo atleta que tem que se manter treinando pra ir se aprimorando, exercitar esses aspectos deveria ser algo cotidiano. Acho que teríamos uma sociedade menos indiferente em muitos aspectos (como o político, por exemplo) e prepararíamos além de possíveis artistas o público para entender melhor a arte do seu tempo.

 

Que conselho você daria a um aluno para ter êxito em sua carreira?

Disciplina pro trabalho, foco nos objetivos e tempo pro lazer!
Um não funciona sem os outros.
E tem que fazer o que gosta também. Em artes, sentir prazer no que faz tem que ser obrigatório. Se for pra achar chato, vai trabalhar em alguma coisa burocrática que dá pra ganhar mais na maioria das vezes.
Errar é fundamental desde que você aprenda com os erros. E nunca se acomodar. Acho que isso enterra qualquer carreira. O Zilio quando me orientou no meu projeto final citou uma frase do técnico de futebol da década de 60, Gentil Cardoso, dizendo que eu a ilustrava muito bem. Quem se desloca recebe, quem pede tem a preferência. acho que ela vale como um bom conselho.

 

Como você se mantém atualizado?
Livros, internet, televisão, rádio e conversando com os amigos. Além de continuar estudando.

 

Além dos estudos, o que influencia a formação de um artista?
Se ele tiver bons olhos e ouvidos, todas as suas relações e o mundo à sua volta.

 

Quais são seus planos para o futuro?
Consolidar minha carreira de artista, viajar mais e ter mais tempo livre.

O que você faz nas horas vagas?
Vou ao cinema, vejo futebol (sou flamengo doente), estou com meus amigos e dou uma namorada.