DVCO, NON DVCOR – Bruno Miguel – 2012

CARTA ABERTA A JOHN ASHBERY

A memória é uma ilha de edição – um qualquer passante diz, em um estilo nonchalant, e imediatamente apaga a tecla e também o sentido do que queria dizer.
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?
WALY SALOMÃO

DVCO, NON DVCOR.

-Puta merda Bruno, tamo perdido, dá uma referência, por favor!?

Era o Polke, no celular, de novo, ligando pela terceira vez. Não entendo como ele pode ter se esquecido de imprimir o mapa do Google que eu enviei. O taxista com certeza tá enrolando eles. Queria ver esses três alemães pegando um táxi no Rio, pra ir do Galeão pro meu atelier, que também fica na Ilha do Governador, eles dariam a volta pelo centro e a zona sul. Peço então pra falar com o Richter ou com o Kippenberger:

– Gerhard, vou te passar o endereço, pede pro Martin usar o GPS do IPhone dele e explicar pro motorista qual é o caminho, OK? Anota aí, 772 Sixth Street Lyndhurst, Jersey. Anda logo que vai sair uma linguicinha do fogo agora. E o Gerhard afobado responde:

-Já é, fui!

Meio abuso isso de fazer churrasco na casa dos meus tios num quatro de julho. Ainda bem que, apesar dos mais de 20 anos que já vivem aqui, eles continuam sendo autênticos portugueses brasileiros. Mas seria imperdoável passar um mês de férias conhecendo Nova York e New Jersey, tirando um milhão de fotos desse mundinho encantado que é o subúrbio nessas cidades, e não mostrar pros amigos que estão aqui como é um típico churrasco brasileiro. Salsicha e hambúrguer com molho BBQ??? Se fudê! Geral vai experimentar picanha, alcatra, linguiça e coxinha de frango, tudo com farofa, vinagrete e maionese. Tia Sônia tirou onda na categoria da simplicidade. International zona norte style!

Guignard, Amilcar e Lygia estão sentados juntos, o Guiga sempre magnético com sua inocência. Se der mole, Lygia vai ser a paixão platônica da vez, não que ele se desfaça das antigas, ele só vai acumulando. Acho que sou meio assim, mas eu me encanto por lugares, paisagens, ou melhor, me apaixono pela imagem e a sensação de um lugar. Isso deve ser a memória afetiva da paisagem. Sei lá. Parafraseando a Dorothy “There’s no place like home”. Mas aqui num subúrbio de Jersey, que conheço há pelo menos duas décadas graças aos filmes da sessão da tarde, me sinto em casa com minha família, como se estivesse no Rio.

Ouço a campainha, Jean-Michel abre a porta e recebe Jean-Baptiste com aquela cara de quem sofre pra mijar, “Basquiat, dá um tempo, isso é coisa de outros carnavais, hoje é dia de festa.” Enfim, o Debret já conversou, explicou, deu sua versão da história, mas sempre há quem conteste. São sempre versões, olhares e pontos de vista. Quem vê de fora, vê com outros olhos. E isso é importante porque acaba sendo um olhar sem aquela anestesia do cotidiano. E traz um olhar com outra bagagem, com novas histórias… “Debret, senta na mesa com o Frans Post que daqui a pouco vou lá trocar idéia com vocês sobre essa situação do artista viajante.”

Churrasco animado, o David deu um “big splash” molhando geral e o Ed Ruscha quebrou um copo na beira da piscina, tio Victor tá começando a não gostar da bagunça, alguém trocou o cd dos Mutantes pelo do Caetano e a Rita Lee foi passear. Beleza, a festinha está mais calma e fica melhor de conversar com os mestres. Quase todos os convidados vieram, tô feliz.

O Majerus me pergunta quando vai ser minha próxima individual. Digo que em maio em São Paulo na Emma Thomas, falo que vou mostrar uns trabalhos que discutem questões como a pintura enquanto ilha de edição, um desdobramento do pensamento não linear tão comum à minha geração graças à internet. A paisagem enquanto intervalo, sempre em movimento, quase sempre vista no deslocamento entre a casa, o trabalho e o lazer. Vou celebrar a beleza de paisagens banais norte-americanas, mas representando-as levando em conta a história da arte brasileira e as minhas referências pessoais. Pelo sorriso acho que o Warhol curtiu. O Zilio quer saber se continuo trabalhando com suportes variados e se o Kitsch, a cultura popular e os grafismos urbanos ainda são questões. Como um jogador de futebol, dando entrevista no intervalo do jogo, respondo de bate pronto:

– Com certeza!

Pergunto pro Koons se ele já viu meus móveis-paisagens. Ele diz que sim, mas não entendeu, apesar de ter adorado a estranheza.

– Trabalhei seis meses com um escultor de barracão de escola de samba no meu atelier, queria desenvolver móveis lúdicos não-funcionais. Já que não temos tempo de viver a paisagem natural no dia-a-dia, essas peças são quase pinturas tridimensionais de um refúgio inacessível. A domesticação do monumental. As bases são de móveis antigos que ganhei ou comprei em brechós. Tem um lance meio de aproximar a arte contemporânea de uma linguagem popular e brasileira, como é o carnaval, saca?

Murakami já estava vendo as fotos no facebook e botando “curti” em um monte. Hockney indaga:

– tem nome a exposição?

– DVCO, NON DVCOR.

– E o que significa?

– Conduzo, não sou conduzido.

– Faz você muito bem.

Bruno Miguel