DVCO, NON DVCOR – A paisagem é um intervalo. Benjamin Moreh – 2012

A paisagem é um intervalo.

“Hoje tenho certeza que amanhã gostarão do que pintei ontem”

Bergamo Montenuovo. Séc XIX

Ontem, hoje e amanhã. Esse tempo específico não definido é a idéia a ser transformada em imagens na pesquisa de Bruno Miguel. Como numa narrativa típica de Tarantino, Bruno define uma timeline em que processos, referências e imagens coexistem em sua pseudo-harmonia estetizante. Nesta primeira mostra individual em São Paulo, “DVCO, NON DVCOR” (que em latim significa “Conduzo, não sou conduzido”), o artista cita a frase da bandeira da cidade de São Paulo como viés de leitura de seus trabalhos, todos desenvolvidos a partir de uma estadia de um mês em Nova York e Nova Jersey. A dinâmica desse processo inverte a via histórica, em que as paisagens brasileiras foram tantas vezes documentadas por missões ou artistas viajantes, e o coloca na direção contrária, sendo ele o editor.

A pintura é uma ilha de edição e toda obra é uma tomada de decisão, onde o recorte dado é sempre uma opção do artista. Questões como “por que”, “o quê” e “como” pintar são sinais de alerta sempre ligados. O artista enfrenta a sobrecarga de imagens efêmeras pop- sedutoras das mídias contemporâneas, além das novas tecnologias insistentes em levar a imagem na direção de uma tridimensionalidade tecnológica. Este é um desafio para artistas dessa geração íntimos do pensamento não linear fruto da internet.

Se na sociologia o homem é a soma de suas experiências, aqui a pintura é a síntese das influências sofridas pelo artista. O atelier é espaço de experimentação, construção e representação das idéias somadas à estante de livros, como um Google analógico, de fonte visual com suas referências e memórias. Uma ilha. A academia que outrora educou, agora passa à condição de Mamãe Belas Artes contestada. A relação precisa se dar em outro nível, o da troca. Vias de mão única não são democráticas. Democracias não são democráticas. Poucos conduzem muitos.

A paisagem aparece como um intervalo. Para os que não dormem acordados, o percurso casa – trabalho – lazer pode ser uma oportunidade de deleite com a beleza de paisagens banais. A cidade é tão perigosamente sedutora, que anestesia. A janela do transporte é a moldura do movimento, da passagem borrada sobre os vestígios de seus percursos anteriores e das pistas dos que ainda virão. A propaganda contamina a urbe, como pinturas na paisagem. O pôster, a fotografia do outdoor, os letreiros das fachadas; na metrópole essas imagens são reclames, como os dos trailers de cinema, mas somos nós que vivemos a narrativa. Os grafites e pichações acharam seu espaço intermediário, o da contaminação. Eles se apresentam como uma grade entre a paisagem, com suas espontaneidades subliminares, e o olhar do “viajante”, em eterno deslocamento. A cidade educa, deseducando. A pintura aprende com a cidade. A música dos iPhones ensurdece enquanto entretém. A propaganda, a música e a internet educam como as pinturas, sermões e igrejas educaram séculos atrás. A obra de Bruno Miguel é generosamente bem educada. Como, então, transformar influências em referências? “Com pintura…”, assim afirma Bruno, “… mas uma pintura que beba nessas mesmas fontes, mesmo que não as afirmando, mas buscando entendê-las e as citando.”

Por fim, suas esculturas agem nessa ausência, na saudade da paisagem experimentada na vivência, ou nos sonhos. Tecnicamente peculiares, seus “Móveis-Paisagens”, através de um mix de carnaval e mobiliário, trazem de maneira utópica a outrora acessível paisagem natural para dentro das casas. É o monumental domesticado. A paisagem em suas obras bi, tridimensionais ou espaciais tem o sabor de clichês elegantes e informais sempre repletos de ironia, algo que mimetiza a leveza e a pseudo – despretensão da imagética dos subúrbios e das beiras de estrada, deixando uma sensação saudável de que algo mais profundo foi dito nas entrelinhas.

Benjamin Moreh