Desenhos Bruno Miguel – Ivair Reinaldim – 2008

Desenhos – Bruno Miguel

Apesar do fato de a arte contemporânea não privilegiar linguagens, caracterizando-se pela ampliação dos meios tradicionais – tais como pintura e escultura – e a utilização dos mais variados meios de expressão (fotografia, vídeo, instalação, performance, entre outros), uma linguagem permanece bastante atual e por isso é explorada por um grande número de artistas: o desenho. Para entendermos sua importância e um dos principais motivos para essa posição dentro da criação artística atual é preciso retornar à Renascença italiana.

Nos séculos XV e XVI, pintura e escultura disputaram a preferência entre artistas e intelectuais como a mais importante das artes. Pintores e escultores empunharam seus argumentos, cada grupo defendendo seu meio de expressão como superior, muitas vezes em detrimento de seus adversários. Mas tal disputa teve fim com a afirmação do célebre Giorgio Vasari, no século XVI, definindo-as como equivalentes, como “irmãs”, ambas filhas do desenho, este sim “o pai de todas as artes”. Para entendermos realmente o sentido do termo, além da escrita poética de Vasari, é preciso que investiguemos um aspecto conceitual referente a esta linguagem.

A palavra “disegno”, do original em italiano, possui um sentido diferente da nossa palavra em português. No italiano, a palavra se refere a dois níveis de significados intrínsecos: a do desenho interno, projetivo, conceitual, e a do desenho externo, que é a formalização do conceito, o traço propriamente dito. Neste sentido, a essência do desenho renascentista vai além da simples noção de mimesis – de representação naturalista, de imitação da natureza –, como podemos perceber ao ver os estudos de Leonardo Da Vinci e de Miguelangelo. Para eles o desenho era conceitual, uma vez que era visto como projeto da obra – seja ela pintura ou escultura – e foi esta visão que prevaleceu na maior parte da produção posterior, independentemente da aparência que este projeto teria (mais técnica, mais livre, mais expressiva, mais detalhada, mais sintética, mais naturalista, mais abstrata, etc.).

Muitos artistas, principalmente no século XX, souberam explorar diferentes aspectos do desenho. De esboço e preparação para a obra, o projeto passa a ser exposto como o trabalho em si e a linguagem do desenho torna-se uma das mais utilizadas pelos artistas. Mas é nos anos 60 e 70, quando as linguagens tradicionais são relegadas às margens da produção artística em prol de um envolvimento maior com questões lingüísticas, sociais e políticas, que o desenho ganha uma posição diferenciada: ao invés de ser excluído, constituiu-se como umas das linguagens mais completas, graças ao conceitualismo que lhe é próprio.

Bruno Miguel se enquadra nesse contexto ampliado: seus desenhos são projetos, são formulações de conceitos, mas não no sentido técnico, e sim imaginativo. É a imaginação do artista que elabora e desenvolve o livre jogo da criação. O tempo todo, seus desenhos nos “falam” não da existência em si, mas de um mundo de possibilidades existenciais, que é próprio do ser humano. Seus desenhos, por sua multiplicidade, não buscam uma unidade no traço ou na temática – sua unidade está no conceito. Eles sintetizam todos os aspectos referentes à linguagem: da precisão à liberdade, da escassez à saturação, do técnico ao orgânico.

Não é um desenho naturalista; não no sentido tradicional. Mas é um desenho que fala a seu modo da natureza, dos espaços naturais e da relação humana com esse espaço. É um projeto humano frente à natureza. Projeto imaginativo da natureza. Ao escolher esse tema, Bruno Miguel trata uma questão que acompanha a história do ser humano – dominar e conviver com a natureza – e que particularmente hoje se torna um assunto de extrema atualidade. Mas ele não acompanha modismos. Seu trabalho dialoga com a ética humana na exploração dos recursos naturais – na interferência da paisagem – mas lida também com nossa relação estética frente ao espaço natural, nossa busca e, principalmente, construção de uma beleza natural.

Seu projeto é um projeto ético e imaginativo, mas acima de tudo artístico. Ele nos ensina a compreender que a pergunta: o que é um bom desenho? é capciosa, por ser generalizante. O bom desenho é aquele que concretiza conceitualmente aquilo que o artista propõe; visualmente não há nada que nos possibilite dizer que um desenho de Miguelangelo seja superior a um de Rembrandt, ou de Matisse ou Picasso. Precisamos compreender aquilo que extrapola as aparências; o que a arte contemporânea, e particularmente os desenhos de Bruno Miguel, nos ajudam muito bem. Aquilo que nós, como afirmou o filósofo Gaston Bachelard, desenvolvemos com a evolução humana: nossa capacidade imaginativa, nossa capacidade de sonhar.

Ivair Reinaldim