Todos à Mesa – Monica Espinel -2014

Todos à MesaCia das Índias Versus Quaker

Bruno Miguel expande sua pesquisa acerca da pintura e avança em sua exploração formal e conceitual através de seu uso inovador de materiais e técnicas não-tradicionais, incluindo resina, madeira, pratos, copos, xícaras e travessas de porcelana Companhia das Índias, de uma vasta coleção adquirida em lojas de antiguidades e leilões. “Todos à Mesa”, o título da exposição, faz referência a esta coleção do artista e, também, ao chamado imperativo de sua mãe para toda família se sentar à mesa para uma refeição. A exposição reúne seu interesse na representação de experiências comuns do dia-a-dia com uma prática formal aplicada, porém muitas vezes divertida, que se inspira em sua história pessoal, em seu em torno, na cultura pop e na mídia.

No cerne da exposição está a questão da representação e do limite tênue entre o real e o representado. Reproduzindo os desenhos encontrados nos pratos que coleciona, Bruno emprega trompe l’oeil em obras como Negação (2014), como uma metáfora para a essência cada vez mais complexa da realidade e da ficção, e sobre como a informação é percebida, apresentada, representada e entendida hoje. Ele habilmente atualiza a tradição meticulosa do trompe l’oeil, ao pintar sobre porcelana e tampas de tinta seca, confundindo assim o espectador.

Para Bruno, um colecionador compulsivo, o processo de coleção e exibição de objetos e imagens, é um meio de gerar uma narrativa sobre a nossa identidade, sobre quem gostaríamos ser como povo. Como tal, é interessante notar que ele escolhe colecionar e utilizar a porcelana Companhia das Índias, que é historicamente associada ao desejo ocidental de longa data de personalizar objetos. Depois de Portugal estabelecer rotas comerciais para o Extremo Oriente no início do século XVI, os monarcas ocidentais, estadistas, famílias dominantes e outros, avidamente adquiriram porcelana chinesa. O apelo principal da porcelana foi que poderia ser desenhada a pedido. Muitas das peças ou serviços de jantar completos foram decorados com brasões de famílias, reproduções de desenhos ou gravuras enviadas para a China como referência. A Companhia das Índias é muitas vezes considerada a primeira empresa multinacional no mundo.

Esses objetos não somente trazem um toque pessoal e histórico, como também dão a Bruno uma superfície fértil e produtiva para trabalhar. Negação é uma instalação de trinta e quatro pratos pendurados em forma de X. Composta por seis pratos centrais que formam um círculo e irradiam para fora, à primeira vista, a obra parece conter muito mais do essa quantidade, uma vez que Bruno usa trompe l’oeil para criar novos pratos sobre os originais. Como um único prato é pintado em dois ou três outros, ele constrói um jogo aparente de fragmentação. Esta peça também revela o belo uso de listras como um elemento potencializador estrutural. Listras de neon amarelo, verde, rosa e laranja atravessam todos os pratos, unindo a composição. Como sua aparência elaborada e delicada sugere, a obra é o resultado de um processo manual, lento e trabalhoso desenvolvido pelo artista e seus assistentes.

O trabalho de Bruno é o resultado de um hibridismo complexo, gerado a partir de colisões estéticas e de camadas que revelam sua relação singular com materiais e imagem. Suas obras podem ser delicadamente detalhadas e virtuosas como Negação, ao mesmo tempo em que outras obras, como as da série Cozinha (2014), apresentam gestualidade e visceralidade. Essa série lida com narrativas de superfície, materialidade e processos de atelier. Aqui a aplicação delicada de pintura remetendo aos esmaltes da família rosa é usada para decorar e mimetizar “materiais não-artísticos”, tais como paletas e tampas de tinta seca, que sob sua poética se transformam em materiais e suportes. Cada espaço da superfície é preenchido e transbordado com uma atmosfera de reverência ao grafite, iluminadas por traços enérgicos de cor ou por jatos de tinta spray que reforçam anarquicamente suas próprias tensões. Além disso, o artista acrescenta uma camada redonda de resina viscosa ao vidro de proteção, remetendo à forma do prato, o que faz com que as imagens abaixo oscilem, revelando uma atmosfera de excesso barroco e espontaneidade nas soluções.

Em contraste com a série Cozinha, A história é contada pelos vencedores (2013-14) é uma série mais cerebral e conceitual. As obras apresentam uma justaposição de elementos da alta e baixa cultura que atravessam um espaço histórico conectando a estética da era colonial e contemporânea, envolvendo o espectador em um jogo metafórico. Cada caixa de madeira contém um ou dois pratos da Companhia das Índias nos quais o logotipo de uma empresa multinacional como McDonald’s, CNN, Quaker ou Marlboro foi pintado e justaposto a uma citação de autores como Victor Hugo, Friedrich Nietzsche ou George Orwell, que conferem ao trabalho uma segunda leitura que é muitas vezes satírica. Bruno, através de uma reorganização dos valores da cultura de massa e das especificidades da arte contemporânea coloca ambos os conteúdos em um mesmo patamar, trazendo um viés de leitura singular para o tema.

Em Cia. das Índias vs. Facebook (2014), por exemplo, acertadamente Bruno pinta o logotipo do Facebook e seu ícone “Like” em um prato com a representação de uma paisagem idílica, aludindo às incontáveis imagens que diariamente inundam a plataforma de mídia social, e no plano do vidro ele pinta a citação de George Orwell, “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”. Esse lembrete não tão sutil ressalta o poder que seus 1,2 bilhão de usuários dão a esta empresa nos dias de hoje. Por outro lado, o impacto político do Facebook não pode ser subestimado, uma vez que também ajudou a inflamar e repercutir protestos em todo o mundo, levando à sua proibição em países como China, Irã, Paquistão, Síria, Uzbequistão, Vietnã e Curdistão. A questão da liberdade de expressão é trazida à tona em Cia. das Índias vs. CNN (2014). Um banner de transmissão sobre as marchas realizadas no Rio contra a desigualdade social e os gastos do governo ligados à Copa do Mundo é pintado sobre uma cena de batalha de três guerreiros chineses, e justaposto à outra citação famosa de Orwell: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.”

Também inspirado por sua cidade natal, Índice para artistas viajantes – Novos capítulos – Rio de Janeiro – Outro Sentido (2013) apresenta uma sequência de reflexões sobre a cor e os percursos e deslocamentos, que fazem referência aos artistas viajantes e fotógrafos que construíram a representação da paisagem brasileira no decurso do século 19. Bruno mescla pintura degradê e foto-transfer sobre placas memoriais nestas doze obras, documentando e sintetizando a passagem e o registro de tempo, tendo uma delicada consciência de aspectos presentes na serialidade da arte minimalista. A obra oferece o que seu título sugere, um novo itinerário para os artistas que chegam ao aeroporto internacional localizado na Ilha do Governador, onde Bruno cresceu e reside, indo até a Avenida Brasil. Mas ao invés de seguir para a zona sul, que o espectador viaje pelos subúrbios, dirigindo no sentido zona norte, baixada Fluminense, área menos desenvolvida econômica e socialmente, região que abriga a maior parte das escolas de samba do Rio de Janeiro, berço cultural de importantes valores populares da cidade; uma jornada urbana que inspirou a paleta tropical e metálica da série.

Bruno abandona as imagens, porém mantém a paleta intensa e o degradê na série Ceci n’est pas une peinture (2014), onde ele emprega a tela como um material maleável que é transformado pelos objetos de porcelana que se acomodam em seu interior. Bruno questiona a noção de pintura ao alterar radicalmente a estrutura da superfície, lembrando o conceito de “objeto específico” de Donald Judd, onde uma obra de arte não é nem pintura nem escultura, mas algo além dos limites dessas categorias existentes. Miguel explora os efeitos da percepção, com a interação de duas cores puras e radiantes que sangram uma na outra para produzir efeitos de modulação e variação tonal, ampliados pela profundidade gerada pela construção incomum das obras.

Uma variação divertida é encontrada em Cafezinho? (2014), uma série de “pinturas” que poderiam ser lidas como mini-monocromos ou, juntas, como uma cartela de cores bebível. Para criá-las, Bruno encheu xícaras cinzas vintage de café com um único pigmento misturado com resina, condensando e solidificando as cores usadas nas outras obras da exposição. Bruno não é o primeiro artista a introduzir objetos domésticos ou a energia da vida urbana em suas obras. Ele dá continuidade a uma prática do século XX onde a arte e a cultura popular se alimentam uma da outra. Começando com a introdução de jornais parisienses, cartas de baralho, garrafas de vinho e outros artefatos do atelier nas colagens de Picasso e Braque, com a apropriação por Lichtenstein de imagens de histórias em quadrinhos para suas pinturas, ou as colagens de cartazes dos “affichistes” parisienses Jacques Villeglé e Mimmo Rotella, continuando com outros artistas conscientes da cultura popular como Asger Jorn, Sigmar Polke, David Salle e Julian Schnabel, os quais, assim como Bruno, também relacionam com naturalidade a vida cotidiana na pesquisa artística. Esse aspecto aparece em Quebra-cabeça (2014), que consiste em todos os pedaços de um prato quebrado, reunidos com uma camada protetora de resina. A peça projeta uma nostalgia refinada e evoca a famosa tradição de Sèvres de quebrar pratos que não são absolutamente perfeitos. O fato de que depois de quebrado foi reconstruído revela a crença de Bruno de que os objetos carregam a memória do vivido.
Em “Todos à Mesa” Bruno desenvolve a pintura tanto formal como conceitualmente, e lida com mais paixões do que se poderia esperar. Durante sua curta carreira já fica claro pela pluralidade de seu trabalho que ele foge à ideia de “estilo” e da previsibilidade. Este artista que coleciona tudo, desde garrafas de Coca-Cola e coisas vintage como Muppet Babies, até bichos cinéticos de Abraham Palatnik, trata seu colecionismo e suas obras como um elo com o passado, sempre confrontando o presente de maneira sagaz.

– Monica Espinel
Todos à Mesa

Tudo posso naquilo que me fortalece – Benjamin Moreh -2013

Tudo posso naquilo que me fortalece.

Tudo posso naquilo que me fortalece.
Essa ideia, comumente associada à religiosidade, apresenta neste recorte da pesquisa de Bruno Miguel um vasto mundo de interpretações, desde a irônica até a sagrada.
“Tudo posso naquilo que me fortalece” entende que a força está no outro, na relação estabelecida, impossível de ser consumada individualmente. O poder se estabelece na relação, não em um dos elementos específicos apresentados, a construção do “entre” é o que interessa. Entre artista e obra, entre mensagem e leitura, entre o ontem e o amanhã, mas claramente não de maneira linear. Essas relações são abertas, rizomáticas, impossíveis de serem lidas com início, meio e fim. Tudo se contamina e prolifera com a velocidade da banda larga ou das relações virtuais. A obsolescência é programada para daqui a pouco.
Nesse universo de busca incessante pelo entretenimento superficial , como se encaixa a pintura, com seu tempo de fatura e consciência histórica? Com fé! Na sua capacidade de transformar a avalanche de imagens descartáveis cotidiana em algo maior, sagrado. Tanto quanto o pequeno mundo que a cerca (a arte) for capaz de convencer o resto do mundo. Como a construção de uma religião. Em um tempo de tantas religiões, entendendo que a maior delas é o capitalismo e que a economia engole estados, políticas e sistemas, o artista pode sempre boiar ou nadar (muitos se afogam), contra ou a favor. Destruindo ou consolidando. Mas até que ponto essas iniciativas transbordam o meio das artes e chegam ao mundo? Acredito que esses trabalhos de Bruno transpirem um conformismo irônico. Eles buscam o alcance que um videoclipe ou um comercial de televisão tem, mas com um comentário sofisticado sobre o mundo, travestido de sedução barata. Bruno lança mão de todo um arsenal pop para se comunicar. Estampas de camisetas dos anos 80, pichações, ícones populares, cartões de dias dos namorados, propagandas vintage norte-americanas e imagens de produtos da antiga Alemanha Oriental se misturam a azulejos e pratos, frutos da nossa herança colonial. Tudo ocasionalmente despretensioso e aparentemente belo! E não é dessa forma que se constrói uma imagem atualmente? Não é essa a lógica da sedução cool do mercado?
Bruno talvez não perceba, mas acima de qualquer retórica que ele desenvolva para justificar suas opções, a verdadeira força de sua pesquisa está no trabalho. Não na obra em si, mas na labuta do atelier, onde sua curiosidade e inquietação fazem com que sua pintura se mantenha em transformação. Onde suas compulsões buscam erros ansiosos por soluções imprevisíveis, tão generosas que se escondem por trás do deslumbre banal das imagens fáceis. Sua pesquisa é um tipo de pós-pop periférico, sempre relacionando alta e baixa cultura. Uma maquiagem vulgar e exuberante que superficialmente disfarça sua condição de eterna busca pela beleza. Não da pintura, mas do pintar.
Benjamin Moreh – Curador independente

Classe de Pintura – Benjamin Moreh – 2014

Classe de Pintura

Bruno Miguel é pintor.
Mas antes de ser artista, Bruno Miguel já era professor, desde o quinto período da faculdade de licenciatura Bruno leciona. Hoje em dia não dá mais aulas de educação artística para crianças e adolescentes, atualmente tem uma turma avançada de pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tradicional formadora de artistas de destaque nas últimas décadas.
Neste projeto, os dois perfis se assumem claramente complementares. Por trás da simplicidade das obras, se revela uma pesquisa da pintura como linguagem expandida, como pensamento. Cada conceito nessa apresentação é um desdobramento do atelier e da história.
Esse entendimento da pintura como linguagem híbrida, fluída, é o que torna impossível limitá-la à tradição e antigos dogmas. A pintura contemporânea tem vocação para o protagonismo desde que entenda suas interfaces com outras linguagens.
Em “Classe de Pintura”, Bruno parte da contradição de expor sua pesquisa talvez menos estética, mais institucional e experimental em uma feira de arte. Obras como as da série “Restauração” em que pratos e azulejos quebrados serão “consertados” com tinta a óleo branca grossa, começaram a ser realizadas no atelier, mas só alcançam sua potência no enfrentamento com o local onde estão sendo expostas, uma feira com poucos dias de duração. A obra será apresentada com a tinta literalmente fresca (e assim permanecerá até o fim da mostra).
O gênero de pintura escolhido como foco nos últimos anos por Bruno Miguel é a natureza morta, exercício obrigatório nas academias, historicamente bem representada pelos grandes mestres. Pratos, azulejos, garrafas, cinzeiros, tigelas, copos, enfim, todo o repertório já imortalizado nas composições do gênero, aqui se tornam antagonistas à ação da pintura. A tinta, a forma, os procedimentos, mesmo que aparentemente, pareçam esculturas, desenhos ou objetos, neles o artista apenas enxerga exercícios de pintura. Bruno Miguel convida os alunos e os espectadores a enxergar essa pintura não pintada, a partir de seu olhar.

Benjamin Moreh

Make yourself at home – Benjamin Moreh -2013

Make yourself at home

Esse é o espirito. Tanto na perspectiva do artista, muito bem acolhido ao vir morar dois meses nos Estados Unidos, para uma completa imersão no processo de produção da sua primeira individual em Nova York, quanto no que se espera do espectador ao adentrar a pequena e aconchegante galeria, repleta de pinturas sobre suportes tão familiares, normalmente encontrados no contexto doméstico. Sintam-se em casa.

Tradicionalmente Bruno Miguel tem como foco a constante reinvenção. No enfrentamento dos tradicionais gêneros da pintura, na relação com o suporte e na busca de técnicas híbridas, mesclando procedimentos acadêmicos com outros descobertos na labuta cotidiana do atelier.

A série “Sala de Jantar”, apropria como suporte para as pinturas, um conjunto de pratos de origens nobres diversas, adquiridos em leilões de antiguidades e antiquários com outros mais populares comprados em brechós do Exército da Salvação nos subúrbios de Newark. Pratos de marcas tradicionais européias, orientais e brasileiros, apresentados em conjunto com marcas populares. Todos com a história adquirida em seus antigos lares, energia e emoções dos quais foram testemunhas passivas durante anos ou décadas.

Para a exposição “Make Yourself at Home”, Bruno utiliza imagens de propagandas vintage norte americanas e de cartões postais. Suas obras são exercícios de um artista viajante que sempre acaba contaminando a experiência da viagem com seu olhar estrangeiro, como na escultura “Quarta-feira de cinzas” em que faz um paralelo entre os oak nuts que caem com a chegada do outono e o confete que fica pelo chão ao fim do carnaval no Brasil.

A construção do campo pictórico como rizoma, pensada nas relações entre natureza morta, paisagem e abstração levantando enfrentamentos entre baixa e alta cultura, numa relação de composição e de fluxos subjetivamente orientada pelos conceitos de Gilles Deleuze e Félix Guattarri.

É com naturalidade que Bruno e outros artistas brasileiros contemporâneos enfrentam sua herança colonial e periférica. Não a negando, mas a usando como trampolim para fugir de um perfil estereotipado de uma “arte dos trópicos” ou “latino-americana”. O Global é natural para esta geração que cresceu nos centros urbanos e sabe filtrar clichês tanto da street art quanto de regionalismos para construir poéticas particulares que sejam contextualizáveis em qualquer centro de arte do mundo.

Benjamin Moreh – curador

Sign of the Nation – Benjamin Moreh – 2013

Cinema transfer printing analógico e tinta em spray sobre madeira 120 X 240 cm 2013

Sign of the Nation

“Da adversidade vivemos”
Helio Oiticica

Brasil, 2013. A realidade é dura pra quem vive nas periferias dos trópicos. Quase sempre, pela ausência ativa e responsável do governo (poder instituído) o caráter oficial da ocupação da cidade e das vias marginais, se dá de maneira “oficiosa”.

Este universo imagético rico de estéticas degradadas e de dramas sociais surge como pilar para a pesquisa que o artista Bruno Miguel, apresenta na exposição “Sign of the Nation”. Os suportes explorados nesta mostra vão de placas de rua substituídas, adquiridas junto às instituições oficiais americanas (corpo de bombeiros e departamento de polícia) até peças de madeiras variadas compradas em populares lojas de material de construção. Todos saturados pelas histórias adquiridas em sua existência no mundo real, prévias à apropriação que o artista o faz.

A imagem chave da exposição é uma construção / outdoor de estrutura precária que se impõe em uma das principais vias de trânsito do país, a Avenida Brasil. Um monumento colossal ao modus operandi de nossa sociedade que aprendeu a lidar a partir de seu “jeitinho brasileiro” com a informalidade e a indiferença do olhar, frente às ocupações que o “sistema” auto preenche em suas frestas. Onde o estado não se apresenta como deveria, alguém há de estar ganhando ou criando novas dinâmicas de poder.

Em “Sign of the Nation” Bruno apresenta um conjunto de trabalhos em que a pesquisa sobre novas tecnologias na arte é subvertida em prol de suas aplicações analógicas na pintura. Um exercício de enfrentamento, não de negação. Talvez uma busca pela transgressão, uma quebra da frieza que a era digital impõe aos processos em suas faturas.

A cidade que se vislumbra nesta mostra, não é o Rio de Janeiro das Olimpíadas ou dos cartões postais. É um Rio que se entorna mais ao norte do Aeroporto internacional do Galeão. Aquele que nem os turistas, nem os artistas viajantes costumam conhecer. Welcome to Rio!

Benjamin Moreh – Curador Independente

DVCO, NON DVCOR – Bruno Miguel – 2012

CARTA ABERTA A JOHN ASHBERY

A memória é uma ilha de edição – um qualquer passante diz, em um estilo nonchalant, e imediatamente apaga a tecla e também o sentido do que queria dizer.
Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser levado junto de roldão.
Onde e como armazenar a cor de cada instante?
Que traço reter da translúcida aurora?
Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?
O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?
WALY SALOMÃO

DVCO, NON DVCOR.

-Puta merda Bruno, tamo perdido, dá uma referência, por favor!?

Era o Polke, no celular, de novo, ligando pela terceira vez. Não entendo como ele pode ter se esquecido de imprimir o mapa do Google que eu enviei. O taxista com certeza tá enrolando eles. Queria ver esses três alemães pegando um táxi no Rio, pra ir do Galeão pro meu atelier, que também fica na Ilha do Governador, eles dariam a volta pelo centro e a zona sul. Peço então pra falar com o Richter ou com o Kippenberger:

– Gerhard, vou te passar o endereço, pede pro Martin usar o GPS do IPhone dele e explicar pro motorista qual é o caminho, OK? Anota aí, 772 Sixth Street Lyndhurst, Jersey. Anda logo que vai sair uma linguicinha do fogo agora. E o Gerhard afobado responde:

-Já é, fui!

Meio abuso isso de fazer churrasco na casa dos meus tios num quatro de julho. Ainda bem que, apesar dos mais de 20 anos que já vivem aqui, eles continuam sendo autênticos portugueses brasileiros. Mas seria imperdoável passar um mês de férias conhecendo Nova York e New Jersey, tirando um milhão de fotos desse mundinho encantado que é o subúrbio nessas cidades, e não mostrar pros amigos que estão aqui como é um típico churrasco brasileiro. Salsicha e hambúrguer com molho BBQ??? Se fudê! Geral vai experimentar picanha, alcatra, linguiça e coxinha de frango, tudo com farofa, vinagrete e maionese. Tia Sônia tirou onda na categoria da simplicidade. International zona norte style!

Guignard, Amilcar e Lygia estão sentados juntos, o Guiga sempre magnético com sua inocência. Se der mole, Lygia vai ser a paixão platônica da vez, não que ele se desfaça das antigas, ele só vai acumulando. Acho que sou meio assim, mas eu me encanto por lugares, paisagens, ou melhor, me apaixono pela imagem e a sensação de um lugar. Isso deve ser a memória afetiva da paisagem. Sei lá. Parafraseando a Dorothy “There’s no place like home”. Mas aqui num subúrbio de Jersey, que conheço há pelo menos duas décadas graças aos filmes da sessão da tarde, me sinto em casa com minha família, como se estivesse no Rio.

Ouço a campainha, Jean-Michel abre a porta e recebe Jean-Baptiste com aquela cara de quem sofre pra mijar, “Basquiat, dá um tempo, isso é coisa de outros carnavais, hoje é dia de festa.” Enfim, o Debret já conversou, explicou, deu sua versão da história, mas sempre há quem conteste. São sempre versões, olhares e pontos de vista. Quem vê de fora, vê com outros olhos. E isso é importante porque acaba sendo um olhar sem aquela anestesia do cotidiano. E traz um olhar com outra bagagem, com novas histórias… “Debret, senta na mesa com o Frans Post que daqui a pouco vou lá trocar idéia com vocês sobre essa situação do artista viajante.”

Churrasco animado, o David deu um “big splash” molhando geral e o Ed Ruscha quebrou um copo na beira da piscina, tio Victor tá começando a não gostar da bagunça, alguém trocou o cd dos Mutantes pelo do Caetano e a Rita Lee foi passear. Beleza, a festinha está mais calma e fica melhor de conversar com os mestres. Quase todos os convidados vieram, tô feliz.

O Majerus me pergunta quando vai ser minha próxima individual. Digo que em maio em São Paulo na Emma Thomas, falo que vou mostrar uns trabalhos que discutem questões como a pintura enquanto ilha de edição, um desdobramento do pensamento não linear tão comum à minha geração graças à internet. A paisagem enquanto intervalo, sempre em movimento, quase sempre vista no deslocamento entre a casa, o trabalho e o lazer. Vou celebrar a beleza de paisagens banais norte-americanas, mas representando-as levando em conta a história da arte brasileira e as minhas referências pessoais. Pelo sorriso acho que o Warhol curtiu. O Zilio quer saber se continuo trabalhando com suportes variados e se o Kitsch, a cultura popular e os grafismos urbanos ainda são questões. Como um jogador de futebol, dando entrevista no intervalo do jogo, respondo de bate pronto:

– Com certeza!

Pergunto pro Koons se ele já viu meus móveis-paisagens. Ele diz que sim, mas não entendeu, apesar de ter adorado a estranheza.

– Trabalhei seis meses com um escultor de barracão de escola de samba no meu atelier, queria desenvolver móveis lúdicos não-funcionais. Já que não temos tempo de viver a paisagem natural no dia-a-dia, essas peças são quase pinturas tridimensionais de um refúgio inacessível. A domesticação do monumental. As bases são de móveis antigos que ganhei ou comprei em brechós. Tem um lance meio de aproximar a arte contemporânea de uma linguagem popular e brasileira, como é o carnaval, saca?

Murakami já estava vendo as fotos no facebook e botando “curti” em um monte. Hockney indaga:

– tem nome a exposição?

– DVCO, NON DVCOR.

– E o que significa?

– Conduzo, não sou conduzido.

– Faz você muito bem.

Bruno Miguel

DVCO, NON DVCOR – A paisagem é um intervalo. Benjamin Moreh – 2012

A paisagem é um intervalo.

“Hoje tenho certeza que amanhã gostarão do que pintei ontem”

Bergamo Montenuovo. Séc XIX

Ontem, hoje e amanhã. Esse tempo específico não definido é a idéia a ser transformada em imagens na pesquisa de Bruno Miguel. Como numa narrativa típica de Tarantino, Bruno define uma timeline em que processos, referências e imagens coexistem em sua pseudo-harmonia estetizante. Nesta primeira mostra individual em São Paulo, “DVCO, NON DVCOR” (que em latim significa “Conduzo, não sou conduzido”), o artista cita a frase da bandeira da cidade de São Paulo como viés de leitura de seus trabalhos, todos desenvolvidos a partir de uma estadia de um mês em Nova York e Nova Jersey. A dinâmica desse processo inverte a via histórica, em que as paisagens brasileiras foram tantas vezes documentadas por missões ou artistas viajantes, e o coloca na direção contrária, sendo ele o editor.

A pintura é uma ilha de edição e toda obra é uma tomada de decisão, onde o recorte dado é sempre uma opção do artista. Questões como “por que”, “o quê” e “como” pintar são sinais de alerta sempre ligados. O artista enfrenta a sobrecarga de imagens efêmeras pop- sedutoras das mídias contemporâneas, além das novas tecnologias insistentes em levar a imagem na direção de uma tridimensionalidade tecnológica. Este é um desafio para artistas dessa geração íntimos do pensamento não linear fruto da internet.

Se na sociologia o homem é a soma de suas experiências, aqui a pintura é a síntese das influências sofridas pelo artista. O atelier é espaço de experimentação, construção e representação das idéias somadas à estante de livros, como um Google analógico, de fonte visual com suas referências e memórias. Uma ilha. A academia que outrora educou, agora passa à condição de Mamãe Belas Artes contestada. A relação precisa se dar em outro nível, o da troca. Vias de mão única não são democráticas. Democracias não são democráticas. Poucos conduzem muitos.

A paisagem aparece como um intervalo. Para os que não dormem acordados, o percurso casa – trabalho – lazer pode ser uma oportunidade de deleite com a beleza de paisagens banais. A cidade é tão perigosamente sedutora, que anestesia. A janela do transporte é a moldura do movimento, da passagem borrada sobre os vestígios de seus percursos anteriores e das pistas dos que ainda virão. A propaganda contamina a urbe, como pinturas na paisagem. O pôster, a fotografia do outdoor, os letreiros das fachadas; na metrópole essas imagens são reclames, como os dos trailers de cinema, mas somos nós que vivemos a narrativa. Os grafites e pichações acharam seu espaço intermediário, o da contaminação. Eles se apresentam como uma grade entre a paisagem, com suas espontaneidades subliminares, e o olhar do “viajante”, em eterno deslocamento. A cidade educa, deseducando. A pintura aprende com a cidade. A música dos iPhones ensurdece enquanto entretém. A propaganda, a música e a internet educam como as pinturas, sermões e igrejas educaram séculos atrás. A obra de Bruno Miguel é generosamente bem educada. Como, então, transformar influências em referências? “Com pintura…”, assim afirma Bruno, “… mas uma pintura que beba nessas mesmas fontes, mesmo que não as afirmando, mas buscando entendê-las e as citando.”

Por fim, suas esculturas agem nessa ausência, na saudade da paisagem experimentada na vivência, ou nos sonhos. Tecnicamente peculiares, seus “Móveis-Paisagens”, através de um mix de carnaval e mobiliário, trazem de maneira utópica a outrora acessível paisagem natural para dentro das casas. É o monumental domesticado. A paisagem em suas obras bi, tridimensionais ou espaciais tem o sabor de clichês elegantes e informais sempre repletos de ironia, algo que mimetiza a leveza e a pseudo – despretensão da imagética dos subúrbios e das beiras de estrada, deixando uma sensação saudável de que algo mais profundo foi dito nas entrelinhas.

Benjamin Moreh

Have a nice day! – The Tourist – Marcelo Campos – 2011

The Tourist

Excess, anxiety, the longing for a quick taste of paradise, the wandering eye searches for images, interviews given through open windows of vehicles in motion, badly framed pictures, thus are but a few of the tourist’s conditions. The common pleasures, popular quotes, irony, elusive shapes, imprecisions, wanting to belong, here are but a few of the conditions in Bruno Miguel’s paintings. Would they fit together like two sides of the same coin?

Bruno Miguel carries out the exhibit Have a nice day, the everyday greeting withholding existentialist utopia. In the exhibit the artist presents the laborious results of two sides of his work, paintings on reappropriated objects and sculptures. On second-hand frames, scribbled on by other artists, Bruno Miguel sets out to depict and instill an on the road state-of-mind, landscapes taken from car windows, in a clear reference to the classics of modern painting. Effects stand out rendering close to 3D or holographic results as layer-on-layer are posed on wooden, glass and metal frames. Taking advantage of what would be left-out or wasted, Bruno paints on every possible inch of the object. Trash is seen as a ressourceful heritage. Painting becomes the task of an almost sculptor, not of those who wish to magically reveal the underlying shapes in blocks of marble, but rather of the kind who indulge in popular culture’s vivid symbolism, outdoor billboard slogans, carnival merrymaking, raw trash material. The result is vivified, inflated and melted with foam, resins, and paint. Are we still dealing with painting?

The images chosen are there to shed a light on the tourist, underlining the various meanings the term may take. Culturally exotic places stand out, fast food stands shaped like Apache teepees, motels, fisheries, slaughterhouses. We are struck by the natural creativity of advertising architecture: balconies, sunrooms, banners, façades of buildings and houses. Everything seems to hit the streets. Bruno Miguel’s paintings seem to walk the same path, coming in through windows, marking street line stripes, matching traffic lights, highlighting the signal letters, and casting shadows. The native foreign tongue is kept to keep the traveller overwhelmed. That way drawings are made when words seem to make sens. Bruno Miguel uses the typography as yet another pictorial and architectural element. It all flows concomitantly: El Rancho Motel, Pancake Palace, Niblocks Pork Store. The viewer is invited behind the curtains of American culture, unveiling ancestral ethnic and aesthetic realities, ruralities, migrations, frontiers and colonial conquest.

Inclined to sculpture, interested in space, yet mantaining painting as a goal, a series of imposing objects mimic mountains, vegatation, stones and rocks on a toy or scenographic scale. Like the Hollywood Sci-fi studio settings, revealing the aesthetic of a generation, the pieces stand on chair and table legs, flat or curved, sometimes in resin others out of wood. The artist bravely takes on the role of the carnival scenographist, the kiddie’s fun park designer, suburban edens. A place where very few have ventured. Instead of exceling in using the glossy lacquer of orientalized sculptures, so much in vogue, Bruno opens the way for wrinkles, hand-made,

Have a nice day! – O Turista – Marcelo Campos – 2011

O Turista

O excesso, a ansiedade, a vontade de experimentar o paraíso por instantes, buscas erráticas por imagens entrevistas pelos vidros dos veículos de locomoção, fotografias mal enquadradas, várias são as condições do turista. Os prazeres populares, a citação, a ironia, formas fugidias, imprecisões, a vontade de pertencer, estas são algumas das condições da pintura de Bruno Miguel. Seriam posturas complementares?

Bruno Miguel elabora a exposição Have a Nice Day, cumprimento recorrente que guarda uma utopia existencialista. Na exposição, o artista apresenta o resultado compulsivo de duas vertentes de trabalho, a pintura sobre objetos apropriados e a escultura. Sobre molduras usadas, pertencentes a outro artista, Bruno Miguel pensa imagens on the road, vistas do interior de carros de passeio, mas, francamente relacionadas a clássicos da história da arte. Nas molduras, criam-se efeitos, pois a superposição de planaridades (chassi, moldura e vidro), aproxima-se aos resultados em 3D e à holografia. Aproveitando o que seria descarte, resto, Bruno pinta por toda a extensão do objeto. O lixo é encarado como herança. Pintar sobre o objeto lança-o em uma tarefa de um quase-escultor, não daqueles que queriam revelar figuras magicamente existentes em blocos de mármore, mas dos que aceitam a alegoria da cultura popular, os reclames de beira de estrada, as soluções carnavalizadas, os materiais vulgares. No resultado, a matéria ganha o volume inflado e escorrido com espumas, resinas e tintas. Ainda continuamos tratando de pintura?

A escolha de imagens evidencia o turista, em todos os sentidos do termo. Ressaltam-se ambientes culturalmente exóticos, casas de lanches rápidos feitas em forma de ocas de índios apache, motéis, peixarias, abatedouros. Impressionamo-nos com a criatividade autóctone das arquiteturas publicitárias: marquises, flâmulas, testadas de prédios e casas. Tudo um pouco avançando sobre a estrada E a pintura de Bruno Miguel caminha com os mesmos procedimentos, avança sobre os vidros, repete listrados, combina-se em sinalizações, ressalta os embossados efeitos das letras, as sombras. Para maior estranhamento, mantém-se a língua estrangeira. Neste sentido, vemos formas e desenhos ainda quando as palavras parecem nos dizer algo. Bruno Miguel usa a palavra como mais um elemento pictórico e arquitetônico. Tudo concomitantemente: El Rancho Motel, Pan Cake Palace, Niblock’s Pork Store. Assim, descortinam-se usos da cultura americana expondo ancestralidades étnicas e estéticas, ruralismos, imigrações, fronteiras e conquistas coloniais.

Do interesse escultórico, espacial, mas mantendo a pintura como meta, uma série de objetos com grande força mimetiza montanhas, vegetações, pedras em escala de brinquedo e cenário. Como ambientes de filmes de ficção científica, revelando uma estética geracional, as peças são apoiadas por pés de mesas e cadeiras, lisos ou torneados, às vezes em madeira, outras em resina. Aqui, o artista corajosamente assume um lugar de franca proximidade com as esculturas de carnaval e de casas de festa infantil: edens suburbanos. Um lugar pouco explorado. Em vez de primar pelo alisado laqueado da escultura orientalizada, presente em muitos artistas atuais, Bruno aceita soluções onde os amassados, a manufatura, a moldagem se dão quase como uma action painting, “zoation sculpture”, para agradar à turma que se autodefinia em seu tempo de Escola.

Exceder, recusar os cacoetes do cubo branco, a limpeza bem comportada.

Conviver com os trabalhos de Bruno Miguel nos situa em um aprendizado sobre possibilidades dos efeitos de superfície, pleonásticas, reafirmativas de vertentes às vezes contraditórias, crenças que se apresentam diante de nossos olhos em evidente combate: geometria e pinceladas expressivas, monocromos e colorjet, arquiteturas modernistas e ecléticas, tinta óleo sobre vidro. Estas são as condições erráticas de um “turista aprendiz”, condições de todos nós.

Marcelo Campos

Have a nice day! – entrevista com Daniela Name – 2011

1- Nesta série de pinturas feitas para “Have a nice day!” você cria uma relação direta com uma paisagem fugidia, muito ligada aos estabelecimentos comerciais à margem de vias expressas dos EUA. Estes prédios são geralmente vistos por quem do carro, por quem está passando rapidamente em frente a eles. O vidro na frente da pintura tem uma relação com isso?

Sim, mas eu não considero que o vidro esteja na frente da pintura. A janela / vidro é o suporte. Ele abriga a pintura, acaba sendo o momento da impressão do olhar. É outra forma de pensar o conceito de janela.

 

2- Falando ainda sobre o vidro, ele assinala de forma bastante visível uma situação que sempre se insinuou em seu trabalho. Sua pintura é construída por planos (tecidos com estampados, colagens, pinturas com tintas diversas) que vão se unindo, se amalgamando, trepando uns sobre os outros. Esta sobreposição de materiais, concreta, acaba servindo de espelho para as inúmeras camadas de sentidos e de referências que você leva para o seu trabalho. Poderia falar sobre isso?

Acho que sua pergunta já meio que trás a minha resposta. É isso mesmo. Sempre construí minha pintura em camadas, penso a composição assim, sobrepondo e retirando, pintando e raspando, sempre achei que deixar o processo aparente, a experimentação de materiais enriquece a obra, agrega. Curto usar suportes que já tem uma história porque isso soma, é sempre mais legal do que começar do zero. Gosto de começar do menos, anterior ao zero!

 

3- Que novos desafios foram impostos estes trabalhos que têm uma área menor de pintura, mas uma complexidade enorme na execução?

A redução da escala não foi um grande desafio, até acho mais fácil pintar nesse tamanho, e pra um começo de nova pesquisa era o ideal. O principal desafio era resolver tecnicamente esse conceito de tridimensionalidade que eu queria discutir. Pintar em três planos para construir um. A pintura tinha que ser de um jeito na madeira da base e de outra maneira no vidro. Pintar no vidro por dentro da moldura era outro desafio, porque eu acabava não vendo exatamente o que aparecia na frente da pintura, eu só via as costas da imagem. Foram dois meses e meio pesquisando materiais e soluções técnicas. Mas acho que valeu a pena, ficou como eu queria.

 

4- Toda paisagem é construída, já nos ensinou a querida Anne Couquelin. Em que medida “Have a nice day!” reafirma isso?

Acho que toda a exposição reafirma isso. Não saberia explicar a medida. Aquelas são as interpretações e reconstruções dos meus olhares e minhas memórias de paisagens, vividas ou não. A presença do homem na paisagem sempre macula o natural com algo de racional. Toda representação é construída.

5- O suporte destas pinturas são molduras antigas de uma exposição de Carlos Zílio, para quem você já trabalhou (ainda trabalha?) como assistente. Como a memória deste outro uso interfere e enriquece cada trabalho seu?

Ainda trabalho com o Zilio até hoje. Adoro passar as tardes de quinta no atelier dele. Ele é um exemplo pra mim. A utilização de suportes que já tem uma história, não só agrega conceitualmente, como faz com que o suporte muitas vezes traga marcas físicas deixadas pelo tempo e pelo uso. Ao começar um trabalho preciso problematizar a história passada com a história que virei a construir. É aquilo de não começar do zero.

6- A exposição também tem um segmento dedicado a esculturas de massa fria. Você já tinha trabalhado com este tipo de material, mas em dimensões muito menores. Como foi a gênese desta expansão, deste crescimento dos trabalhos? Estas peças repetem, de certa maneira, uma operação da pintura, já que também expatriam objetos – móveis, uma prancha de surfe – de seu uso e seu território originais, não é verdade?

Na verdade só as árvores nas esculturas são de porcelana fria. A série se chama móveis paisagens, quis fazer algo que relacionasse arte contemporânea e a estética da zona norte carioca. Então contratei um escultor de barracão de escola de samba e utilizei todo esse universo técnico e alegórico pra fazer as minhas peças. Elas são feitas de isopor, espuma de poliuretano, empasteladas com papel maché, depois pintadas e por último levam um banho de resina acrílica. O processo é bem longo e quimicamente violento, cheguei a ir pro hospital com uma intoxicação devido às resinas e tintas em spray. Comprei e ganhei móveis antigos, os quais eu desconstruí e utilizei como parte das obras, principalmente como base. E isso traz toda aquela história agregada que citei anteriormente.

7- No primeiro andar da galeria Luciana Caravello, as pinturas são margeada por uma instalação, que usa uma antiga placa de açougue como âncora da composição. Como este trabalho vou se impondo nesta montagem?

Eu busquei nas pinturas, uma paisagem global, cheia de clichês, que qualquer um em qualquer lugar pudesse reconhecer, por isso escolhi paisagens em inglês, apesar de nem todas serem americanas, o inglês dos letreiros meio que universaliza a imagem. Na instalação de parede, logo na entrada da exposição, eu cito os clichês cariocas, é o momento de opor para mostrar a intenção e o controle sobre o que se passa lá dentro da sala com as pinturas. É uma placa de açougue repintada, um quadro de letrinhas de plástico de botequim, uma pintura sobre um espelho convexo típico de lojas pequenas com grandes corredores além de uma pintura sobre pôster de propaganda e dois latões, um de óleo vegetal e outro de tinta com espadas de São Jorge e lanças de Santa Barbara, elementos comuns às calçadas cariocas.

8- Uma discussão antiga entre mim e você gira em torno de acúmulo. Divergimos amistosamente a respeito da exposição de vários aspectos de sua criação simultaneamente. Eu acredito que você pode e deve criar no ritmo e com a variedade que bem entender, mas poderia expor isso de maneira mais encadeada, alternada. Você, que domina sua obra melhor do que outra pessoa, defende um processo diferente: acha que o acúmulo faz parte de seu pensamento estético. Adoraria ler novamente os seus argumentos.

Rs, eu vim do Pamplonão, atelier de pintura da Escola de Belas Artes, um mundo de excessos e precariedades, acabei tendo a sorte de conviver com outros artistas da minha geração, os quais admiro e que acabaram influenciando minha formação. Essa estética de excessos sempre me agradou, é uma opção, algo que acredito fazer parte da minha poética. Eu sempre produzo séries, gosto de ir abrindo o trabalho, nunca considero minhas séries fechadas, elas ficam em estado de espera, e eu trabalho em várias simultaneamente, quando acontece de elas já terem força pra ser apresentadas eu as jogo no mundo. Acho que as coisas se complementam, vão dando força e criando sentido. Eu tenho trabalhos muito diferentes uns dos outros, mas que no fundo eu acredito serem respostas complementares pras mesmas perguntas que regem minha pesquisa. Mas talvez, um dia, eu me torne um cara clean, nunca se sabe!

9- Tentando me colocar no lugar do outro – isto é, no seu lugar – fiquei me perguntando se a exposição simultânea de vários aspectos do seu trabalho não reproduziria, no espaço expositivo, o processo que você empreende em cada obra. Quem entra na galeria ou sala de museu percebe na sala a mesma sobreposição de camadas e de discurso distintos, a mesma encruzilhada de informações que é vista em uma tela sua ou em uma escultura que reveste de massa colorida um outro corpo, um outra história. É por aí?

Exatamente! É o que eu acabei de citar na outra resposta, a senhorita está realmente entendendo minhas paradas! Rs…

10- Na visita ao seu ateliê na Ilha do Governador, falamos como estas esculturas maiores ganharam uma estrutura semelhante a de um carro alegórico de carnaval. A referência do fazer manual, do labor e do suor, é muito forte para você. Poderia falar sobre isso?

O processo ensina! O tempo que se está no atelier, pensando, trabalhando, errando é fundamental pro desenvolvimento. Eu sempre, desde muito jovem, tive vários empregos, das mais diversas ordens, já fui recreador infantil, já fui malabarista de boite, já fui camelô com meu irmão, já vendi cachorro quente com minha mãe, dei aula por 10 anos em escolas, além de várias outras coisas e vários desses empregos foram simultâneos. Sempre trabalhei, agora como artista, no meu atelier, não poderia ser diferente, né? Acho que isso tem a ver também com esse aspecto das séries e de apresentar coisas diferentes simultaneamente. Sou meio compulsivo com isso de trabalhar!

11- O carnaval se cruza com ícones da cultura de massa, pop, e com a história da arte em toda a sua trajetória. A sopa de referências é uma característica pós-moderna, mas como você tempera e equilibra este caldo para que ele se torne de fato seu?

Deixando claros os meus interesses, tanto quanto os do meu trabalho. São aspectos diferentes, mas que com o jeitinho certo se misturam e dão um sabor especial à obra. O carnaval é algo novo nessa sopa, eu temperava muito esse universo da história da arte e da cultura popular com o funk, a televisão e os quadrinhos, além é claro das minhas referências pessoais como artista. Acho que os títulos acabam tendo uma importância grande nos meus trabalhos, por ser um momento em que consigo sugestionar esses aspectos com maior clareza.

12- Por fim, você costuma escrever sobre seu trabalho e não foi diferente nesta nova exposição, para a qual produziu um texto que vai ser publicado junto com o da curadoria. A escrita é uma forma de elaborar o discurso, mas como esta elaboração contribui para a que acontece no plano visual e prático, no seu ateliê?

Eu normalmente só escrevo no final do processo. Acho que acaba sendo um registro organizado de tudo que povoou minha cabeça durante o desenvolvimento da exposição. O texto acaba influenciando mais as séries seguintes, do que a da qual ele realmente fala. Porque me obriga a me reposicionar e reinventar o trabalho para uma nova jornada, ou então aprofundar o que foi discutido inicialmente. Mas acho também, que é legal o artista ter voz ativa no registro que fica de uma exposição. Os trabalhos obviamente ficam e são parte desse “legado”, mas não entendo porque me abster de uma troca entre eu e a curadoria e a crítica. Escrever é o momento de arrumar a casa pras visitas que virão jantar, a comida tem que estar saborosa, mas não quero ser lembrado só como um bom cozinheiro, quero ser um bom anfitrião.