A Hospitalidade de Bruno Miguel – Guiherme Gutman – 2009

A Hospitalidade de Bruno Miguel

Guilherme Gutman

A primeira coisa que chama a atenção no trabalho de Bruno Miguel é a sua capacidade de por em diálogo o que já existe e o que ainda está por existir.

Essa qualidade – presente em seus desenhos com a espontaneidade que é característica dessa técnica – se estende a toda a sua obra: pintura, instalações, objetos e maquetes.

Pela expressão “por em diálogo”, devemos entender pensamento e ação vigorosos, postos a serviço da criação de uma ambiência cujo cerne é a natureza que recebe a arquitetura elaborada pelo homem. Caso fôssemos mais precisos, diríamos que as casas e outras edificações que Bruno coloca em cena não são apenas recebidas pelo verde que as acolhe, mas que são também capazes de interferir sobre essa mesma natureza. Neste processo de interferências mútuas, a corporeidade sólida ou vazada do já construído, cava o seu espaço na vegetação; acrescenta o vermelho e o branco ao verde; introduz linhas retas em formas curvas; o concreto armado disputa espaço com as árvores; recorta espelhos d’água no solo.

Mas não é tudo. As casas e as construções transplantadas para a tela, para o papel ou outros suportes, são atravessadas pelas flores estampadas nos tecidos sobre os quais Bruno pinta e as formas orgânicas são eventualmente tornadas arquitetura em seus trabalhos. Há nesse traço forte de sua obra, uma potência que é preciso saber notar e insistir para dela extrair as suas conseqüências máximas. Para tal, podemos tomar uma “imagem-síntese”: sobre o gramado verde, cai o cubo branco concreto. Como cai o cubo? Como o cubo deforma o gramado? Como o verde tinge o concreto? Que composição resulta da “queda-acomodação-incorporação”?

E mais: o cubo – figura tridimensional – ocupa um lugar ambivalente na geometria fantasmática de Bruno. Ele está aquém da natureza- que o transpassa e o engole -, mas também está além dela, posto que invenção humana: objeto inédito, não previsto, um “fora da natureza” criado por alguém que é um “dentro da natureza”. Enigma.

Bruno fez avançar esta imagem sintética de seu trabalho por várias vertentes, deixando algumas trilhas por serem investigadas. Uma delas – a das plantações – faz germinar, crescer e fenecer em espaços urbanos (salas, pátios, caminhos, brechas) – plantas que contarão a história da passagem do tempo.

Outra trilha é a de seus projetos arquitetônicos de casas quase possíveis, em que materiais de construção cingem, dão contorno, passagem e repouso aos elementos naturais. Sua arquitetura é generosa, e as suas casas são receptivas ao olhar. Essas casas, vertidas em grandes maquetes para esta exposição, revelam com veemência a posição que Bruno ocupa em relação à sua arte: a de experimentar, de se arriscar e de testar com coragem os caminhos de seu trabalho.

Bruno Miguel é, enfim, hospitaleiro – qualidade preciosa no Rio de Janeiro/cidade partida. Com seus colegas de geração – Carlos Contente, Gustavo Speridião, Pedro Varela e outros – recebe bem ao seu modo, com reverência e com liberdade, os inventores, os pioneiros, os arquitetos, os criadores, as referências. Os títulos de algumas de suas obras são, nesse sentido, reveladores:

“Nostalgia da Bauhaus”
“Conhecendo Doraemon”
“Honraria à Arquitetura de Piscinas”
“Observando Hopper”
“Consagrando Walt Disney”
“Saudação a Walter Gropius”
“Em Memória de Oscar Niemayer”

Bruno celebra, honra, lembra, observa, comemora, homenageia; Bruno abre a sua casa, a sua proposta, o seu trabalho para fazer conviver a história com H maiúsculo, com uma história, que é a sua própria história e a história dessa geração recentíssima de muitos talentos.

Bruno acha aí a sua brecha – a fenda de onde emerge aquilo que há de original e, a meu ver, de mais interessante em seus trabalhos: ele hospeda na mesma casa uma parcela da história já construída – escolas de arquitetura e de pintura e, no mesmo cômodo, um pedaço da história que ajuda a construir com um grupo de bons amigos e com um mix de referências, ao mesmo tempo original e representativo, de uma época.

Em suas maquetes, as casas são novas e atraentes, mas mal se depositam sobre o verde e a natureza já as devora, retirando da composição qualquer representação idílica. É que Bruno tem algo a dizer sobre o mundo em que se vive, a respeito do qual é preciso não confundir hospitalidade com ingenuidade: deixa de lado em suas obras o ideal do “bem acabado” em favor da bad painting, que parece refletir melhor as impressões e o lugar de sua geração. Suas criações não são um refúgio clean para olhos cansados de realidade; ao contrário, Bruno Miguel acha o espaço na corrente artística contemporânea e dá testemunho ímpar de uma certa arte, de um certo tempo, num certo espaço que, se não negligencia a história, se abre indubitavelmente para a vida de agora e a do quadro seguinte.

Todos de olhos bem abertos para ver o que há de novo por aí.